JUDAS E O MESSIAS NEGRO (JUDAS AND THE BLACK MESSIAH)




A VERDADEIRA FACE DA DOCE TERRA DA LIBERDADE


por Ricardo Corsetti

"Não podemos combater capitalismo branco com capitalismo negro, mas sim com socialismo". Bastaria atentarmos para essa célebre frase presente num icônico discurso do líder negro norte-americano Fred Hampton (30/08/48- 04/12/69) no final dos anos 60, para constatarmos o quão diferente era o movimento de emancipação negra daquele período em relação aos movimentos "identitários" hoje em atividade, tanto nos EUA quanto no Brasil, onde o que se vê, em geral, são os próprios auto-intitulados "excluídos pelo sistema", lutando não contra as bases de tal sistema (conforme ocorria no período acima citado), mas sim para serem nele incluídos. Em outras palavras, a lógica destes movimentos de emancipação negra contemporâneos passou a ser: "Para que confrontar o sistema, se é mais fácil (e seguro) crescer dentro dele?"

Eu, particularmente, prefiro mil vezes a opção verdadeiramente corajosa dos loucos e apaixonantes anos 60, ou seja, a apelidada contracultura que visava romper com toda a hipocrisia e comodismo que ainda hoje reinam num mundo comandado pela falácia conhecida como "democracia liberal".


Devaneios à parte, quanto ao filme propriamente dito, além da trama (inspirada em fatos verídicos) altamente relevante e bem desenvolvida, a direção a cargo de Shaka King (Newlyweeds, 2013) é bem competente, marcada por belos planos e ritmo seguro. Merece destaque também a bela fotografia, capaz de tornar determinados personagens em verdadeiros anjos barrocos, graças ao lindo trabalho de fotografia.


Fred Hampton (Daniel Kaluuya), enquanto presidente dos Panteras Negras em Illinois, é o estereótipo do líder verdadeiramente apaixonado por uma causa e com uma capacidade discursiva invejável, comparável até a do mais famoso líder negro norte-americano de todos os tempos: Malcolm X. William O'Neal (Lakeith Stanfield), por outro lado, equivale a uma espécie de "capitão do mato" à norte-americana, ou seja, o indivíduo servil e oportunista, capaz de apunhalar pelas costas, sem piedade, seus próprios iguais, em troca de boa remuneração e privilégios. Ato que levou inevitavelmente ao assassinato de Hampton, tramado pelo próprio FBI. Ou seja, assim a "doce terra da liberdade" tratava quem não rezasse por sua cartilha.


Sinceramente, caso não soubesse que a velha Academia hollywoodiana quase sempre não prima necessariamente pela avaliação imparcial dos indicados, levando verdadeiramente em conta, apenas os reais méritos técnicos e temáticos dos concorrentes, em vez de ceder à pressão, ou seja, o "lobby" realizado pelos grandes estúdios e produtores em favor de seus produtos mais facilmente vendáveis; enfim, não fosse por isso, eu me arriscaria a dizer que Daniel Kaluuya e Lakeith Stanfield já estariam com a taça (ou melhor, estatueta de bronze) nas mãos, respectivamente como melhor ator e coadjuvante, bem como Judas e o Messias Negro deveria, sem exageros, levar a estatueta de melhor filme em 2021. Mas, enfim, agora é esperar pra ver e tomara que venha uma bela surpresa.