M8 - QUANDO A MORTE SOCORRE A VIDA



ENTRE O FILME DENÚNCIA E O LUGAR COMUM


Trilhar o terreno sempre arenoso que envolve a elaboração de um "filme denúncia" costuma ser uma tarefa arriscada para quem busca realismo (e não discurso preconcebido) em seu projeto.

A saga do jovem Maurício (Juan Paiva), estudante negro cotista no curso superior de medicina, se por um lado retrata em momento oportuno, o racismo estrutural "invisível" que caracteriza as relações sociais no Brasil contemporâneo (vide os diversos casos de crimes por motivação racial recentemente relatados pelos grandes meios de comunicação), no entanto, ao se valer de muitos clichês para contar a história, acaba enfraquecendo, em muito, a trama de M8 - Quando a Morte Socorre a Vida.


O já experiente Jeferson De (Bróder, 2010), diretor e corroteirista, teria maior êxito ao contar essa história claramente marcada pelo realismo social, caso não recorresse a determinadas situações ao longo da trama que, de tão óbvias, como por exemplo naquela cena em que Maurício, segundos após sair de uma festa na casa de um colega rico da faculdade, já é imediatamente abordado, com extrema violência, aliás, por uma viatura de polícia.



Embora saibamos que esta situação faz mesmo parte do cotidiano do jovem negro das periferias de nossas grandes capitais, o problema aqui é o momento inadequado, dentro da narrativa fílmica em que tal situação foi realizada. O timing aqui é tão inadequado que beira o inverossímil.


Outro ponto em que o recurso máximo ao clichê prejudica o fator originalidade que faria tão bem ao filme é o quase relacionamento frustrado entre Maurício e sua colega "patricinha engajada" da faculdade, Susana (Giulia Gayoso). Aqui, então, o recurso ao ultra-clichê estilo "a princesa e o plebeu" me parece absolutamente dispensável.

Por mais que "M8" tenha sua relevância ao retratar como pano de fundo a espinhosa questão da forma como corpos (cadáveres) de jovens negros, em geral mortos em confronto com a polícia, chegam, sem passarem por qualquer tipo de estudo de caso prévio ou burocracia necessária, às mesas dos cursos de medicina Brasil afora; o problema é que essa subtrama - bem mais interessante que o restante do filme, diga-se de passagem - acaba se perdendo em meio à trama central, focada nas questões pessoais de Maurício.


Importante destacar: quando o filme está focado na citada subtrama envolvendo a chegada dos corpos à faculdade há um leve flerte com o gênero terror que talvez pudesse funcionar, caso fosse melhor explorado.