MAIOR QUE O MUNDO



UMA EQUIVOCADA TENTATIVA DE TRANSGRESSÃO



por Ricardo Corsetti


Interessante notar como um roteiro que, caso fosse filmado 40 anos atrás, resultaria num filme absolutamente inovador e transgressor. Hoje, sinceramente, soa como um autêntico amontoado de clichês.

Afinal, retratar um escritor boêmio e relativamente "fracassado" em sua carreira literária, algo na linha Charles Bukowski (1920 - 1994), caso não se tome muito cuidado para não se cair em armadilhas do tipo: conferir glamour à porra-louquice por si só, ou idealizar excessivamente o personagem, como um "anjo caído"; a possibilidade de se cair num estereótipo equivocado e ultrapassado é realmente muito grande.


Eriberto Leão (Assalto ao Banco Central, 2011) está bem em cena como o eterno autor de um único livro de sucesso: K-Beto. Mas a forma condescendente por meio da qual se retrata o explícito machismo e hipocrisia do personagem é realmente inaceitável para os dias de hoje. Obs: e olha que se tem alguém aqui que combate a cartilha do politicamente correto, esse alguém sou eu. Mas sinceramente, mesmo assim, achei o personagem intragável.

A propósito, a forma como K-Beto trata sua fã/aspirante à namorada, vivida pela belíssima Gabi Lopes (A Mulher do Meu Marido, 2019), é simplesmente inaceitável.



Destaque para a personagem (melhor amiga do protagonista) vivida por Luana Piovani (O Homem que Copiava, 2003), com uma aparência estranhíssima, diga-se de passagem, com as sobrancelhas raspadas, etc.


A verdade é que, salvo a beleza de Gabi Lopes e algumas boas piadas acerca do universo dos "artistas underground" à brasileira, pouca coisa aqui é verdadeiramente digna de nota.


Conforme eu já havia mencionado, eis uma trama que seria vista como "revolucionária" há uns 40 anos, mas que, atualmente, soa como uma autêntica peça de museu, graças à overdose de clichês narrativos em que se baseia o filme. É uma pena mesmo.