O DIREITO DE VIVER (Roe vs. Wade)


CONSERVADORISMO CONSISTENTE E CONTUNDENTE

por Ricardo Corsetti

Mesmo quem, assim como eu, normalmente não simpatiza com os grupos conservadores que, tanto no Brasil quanto ao redor do mundo, condenam veementemente a prática (legal ou ilegal) do aborto, dificilmente conseguiria não colocar em dúvida suas convicções, ao ver este interessante e já candidato a polêmico filme O Direito de Viver.

Embora abuse do tom melodramático em alguns momentos, o filme escrito e dirigido pela estreante Cathy Allyn e Nick Loeb (Carga Preciosa, 2016) se apoia em argumentos contundentes para sustentar sua posição claramente anti-aborto.

Para início de conversa, o longa nos apresenta o fato real e pouco conhecido de que uma das pioneiras na defesa da prática do aborto nos EUA era uma mulher de origem social privilegiada que se associou à Ku Klux Klan (organização assumidamente racista) para realizar abortos em larga escala em mulheres negras visando "conter a expansão descontrolada de bebês negros na América". Detalhe: a primeira associação pró aborto por demanda (sem ser motivado por estupro ou risco de morte à mãe) foi criada em homenagem justamente a essa mulher.


Após este prólogo de apresentação da trama, O Direito de Viver se concentrará no embate entre o Doutor Aborto (Bernard Nathanson) e a Doutora pró-vida Mildred Jefferson, a partir do final dos anos 60, que se estende por pelo menos duas décadas.


A partir daí, o filme procura apresentar um perfil puramente oportunista por parte do Doutor Aborto ao se associar a grupos feministas e progressistas, em favor da prática e legalização do aborto por demanda, em todo o território norte-americano.


A narrativa é eficiente ao apresentar seu ponto de vista contrário ao aborto, ao questionar a partir de que momento o feto representa de fato uma vida humana já formada e não "apenas um bolo disforme de sangue e tecido", conforme chega a classificar o feto, o Doutor Bernard Nathanson.

Além disso, vemos o progressivo arrependimento e drama de consciência vivido pelo já então rico e famoso médico, ao constatar que suas hipóteses acerca da "ausência de vida" nos milhares de fetos humanos que ele eliminou, estavam erradas. Fato que se deveu, segundo o doutor Nathanson, à inexistência do ultrassom na época em que ele começou a realizar abortos em grande escala, o que "não lhe permitiu ver o tamanho do erro que estava cometendo", conforme as palavras do próprio.


O principal ponto baixo do filme, porém, é a escolha de um de seus próprios diretores, ou seja, Nick Loeb, como protagonista. Pois ele sinceramente não tem carisma (ou mesmo talento dramático) suficiente para dar conta de um personagem (real) tão denso e historicamente importante.


Felizmente, para compensar tal erro, O Direito de Viver conta com um elenco coadjuvante de primeiríssima, com destaque para a bela e talentosa Stacey Dash (Nunca É Tarde Para Amar, 2007) como a célebre doutora Mildred Jefferson e também para a dupla de juízes vividos por John Voight (Perdidos na Noite, 1969) e William Forsythe (Fúria Mortal, 1991), além do ex-galã oitentista Steve Guttenberg (Loucademia de Polícia, 1984) como um importante político. Obs: o ótimo trabalho de reconstituição de época da direção de arte também é digno de nota.


A cena, já próxima ao desfecho do filme, em que o próprio Doutor Aborto vê na tela do ultrassom um feto, já visivelmente com aparência humana constituída, sendo literalmente despedaçado e arrancado do ventre materno é mesmo contundente, a ponto de me fazer questionar minha postura em relação ao aborto.

Filme realmente necessário e pertinente à eterna discussão sobre o tema.