O HOMEM DO NORTE (The Northman)





UM DIRETOR EM BUSCA DE AFIRMAR (OU MESMO ENCONTRAR) SEU ESTILO


por Ricardo Corsetti


Com apenas três longas no currículo: A Bruxa (2015), O Farol (2019) e O Homem do Norte (2022), o diretor Robert Eggers já se tornou uma espécie de Deus vivo aos olhos dos entusiastas do chamado "Post Horror" (Pós-Horror, novo subgênero do cinema contemporâneo). É inegável que o cineasta possui bastante talento, sobretudo como diretor e, talvez numa escala um pouco menor, como roteirista.

Seu já clássico filme de estreia A Bruxa, realizado em 2015, é simplesmente genial em termos de simplicidade e eficiência temática. Seu segundo trabalho, por sua vez, impressiona por conta da belíssima fotografia de inspiração expressionista e clima "bergmaniano" da trama.


E agora falando propriamente sobre seu tão aguardado novo trabalho, creio que, com absoluta certeza, O Homem do Norte irá dividir opiniões, justamente por confirmar a tendência do diretor/roteirista no sentido de nunca realizar o mesmo filme duas vezes, seja no que se refere a temas abordados, seja em termos de estilo narrativo.


Algumas marcas, porém, já começam a se delinear na evidente busca do jovem diretor pela afirmação (ou mesmo descoberta) de seu estilo pessoal, ou seja, sua "assinatura". O flerte e fascinação por questões ligadas ao universo da bruxaria, por exemplo, conforme já ocorria em seu trabalho de estreia, aqui também se faz presente e permeia boa parte das ações no filme em questão.


Há, no entanto, alguns claros problemas em termos de fluência e clareza narrativa, além de algumas situações em que a verossimilhança é simplesmente jogada para o alto em O Homem do Norte, como, por exemplo, a cena em que o protagonista (ainda garoto) é perseguido por praticamente toda a aldeia em que vive e, estranhamente, basta que ele coloque uma capa sobre a cabeça, para passar totalmente despercebido, literalmente ao lado de seus perseguidores.



Observação: eu mesmo, enquanto crítico, sou adepto à ideia de que, sobretudo no que se refere a cinema de gênero, muitas vezes é possível e até necessário deixar a verossimilhança de lado em alguns momentos, justamente para se construir uma cena visualmente interessante. Ou seja, isso é próprio ao cinema de gênero. O problema aqui em se ir por este caminho é que Mr. Eggers não me parece nem um pouco inclinado à intenção de realizar um filme de gênero, mas sim em construir um trabalho "autoral" que visa ser levado a sério. Por isso, optar por soluções narrativas fáceis, não é algo viável para um filme como este.

Um ponto positivo, a meu ver, é o não temor de Eggers no sentido de ir contra a corrente do cinema insípido, asséptico e assexuado (digo em relação à evidente repulsa às cenas de sexo) do cinema contemporâneo. Pois há em O Homem do Norte uma quantidade razoável de cenas bem violentas e sanguinárias, o que significa que, felizmente, o cineasta compreendeu que não faria sentido algum realizar um filme que aborda mitologia nórdica e universo viking tendo pudores em retratar seu cotidiano extremamente violento, historicamente comprovado, aliás.


Mas, embora o tom "fabular" que o filme possui até peça isso em determinadas situações, o tom permanentemente afetado das atuações me incomoda bastante. Ethan Hawke (Roubando Vidas, 2004) por exemplo, está apenas ok em sua pequena participação como Amleth, mas longe, muito longe, da perfeição. Anya Taylor-Joy (A Bruxa, 2015) apresenta, provavelmente, a melhor atuação do filme, potencializada por seu Inegável carisma e beleza exótica. Nicole Kidman (Dogville, 2002), por sua vez, compõe bem uma rainha megera. O problema é que, com todo o respeito, o excesso de botox e procedimentos cirúrgicos desnecessários acabou por deixá-la simplesmente sem qualquer expressão facial. O sempre ótimo Willen Dafoe (O Farol, 2019), desperdiçado num pequeno papel, como já era de se esperar, rouba completamente a cena durante todo o tempo em que está presente.


Entre erros e acertos neste novo trabalho, Robert Eggers se mostra empenhado - conforme eu já mencionei em parágrafo anterior - na busca por um estilo verdadeiramente característico e original, buscando sempre boas referências como Conan - O Bárbaro (1982), do grande John Milius, que, claramente, influenciou a composição estética do protagonista de O Homem do Norte. Enfim, melhor sorte na próxima tentativa, Mr. Eggers.