O NINHO (The Nest)


TERROR SEM MEDO


por Vicente Vianna


Longa-metragem de estréia do diretor, roteirista e produtor italiano Roberto De Feo eleito pelo Syndicate Film Journalists o Melhor Diretor Emergente. Escrito junto com os roteiristas vencedores do prêmio Solina-Histórias para Cinema, Lucio Besana e Margherita Ferri.

Feo se diz inspirado por filmes como o drama sobrenatural Os Outros (Alejandro Amenábar, 2001) e o drama suspense A Vila (M. Night Shyamalan, 2004). O ritmo lento, ambientes escuros, sensação de tempo e lugar indefinidos também são características em O Ninho, porém a fixação da mãe em proteger o filho do mundo e negar a ele o conhecimento da realidade do que se passa fora dos limites da Villa Dei Laghi foi inspirado, ainda segundo o diretor, por O Show de Truman (Peter Weir, 1998). Observo influências dos filmes O Enigma de Kaspar Hauser (Werner Herzog, 1974) - na questão do adolescente vítima de isolamento social - e muitas influências de Stanley Kubrik (1928 - 1999), ora em O Iluminado (1980), com planos simétricos com a ação ocorrendo no centro da tela, ora com Laranja Mecânica (1971), nas cenas de violência com o personagem psicopata, usando a lente grande angular "olho de peixe" e a música erudita de fundo, bem semelhante ao gosto do personagem Alex.

De Feo conta com bons atores, com destaque para Francesca Cavallin, que está excelente na pele da mãe obstinada, os adolescentes Ginevra Francesconi e Justin Korovkin, também desempenham muito bem seus personagens, assim como o veterano Maurizio Lombardi (seriado The New Pope). Os outros atores não chegam a comprometer a condução da trama.



Um ponto fraco do filme, que me aproximou estar numa representação, foi a falta de cuidado com um detalhe: o lenço totalmente seco - usado duas vezes na história para desmaiar sua vítima - ficou um pouco falso, já que não se mostrou sendo embebido em algum éter. Não que isso fosse necessário, mas a falta de estar molhado, sim. Em certas cenas, o diretor acerta em não mostrar a ação que se chegou a conclusão, valorizando a inteligência de quem assiste e economizando em planos na produção.


A trama prende a atenção por tentarmos entender junto ao protagonista Samuel - que é paraplégico, obstáculo na trama e fator preponderante para nos solidarizarmos com ele -, a medida que vamos descobrindo a loucura da superproteção da mãe que não mede esforços para criar um mundo numa “pseudo-felicidade” acima até dos valores éticos. Torcemos para que ele se liberte daquele mundo insano onde tem a presença, nas entrelinhas, do sobrenatural. Acompanhamos a mudança do arco do personagem através da chegada da também adolescente Denise, que desperta o amor e mostra que fora dali também tem coisas boas, como ela, outras músicas, o rock - pois só ouvia e estudava música erudita -, todo um oposto da violência dita pela sua mãe, para aprisioná-lo pelo medo.


O diretor diz que quis contar uma história diferente dos tradicionais filmes de terror/suspense ao criar o mesmo clima, porém com o foco no relacionamento humano, com o intuito de surpreender o espectador, tirando-o de um lugar para o outro e assim fugir do óbvio. Só que o diretor acaba utilizando todos os clichês do gênero: tem o susto, a tensão, o ritual satânico e um final aberto clássico dos filmes de Zumbi. Embora coerente com a história, ele passa para você a incumbência de imaginar o que pode acontecer dali pra frente. Para o bem ou para o mal. O Ninho um drama/sobrenatural que não dá medo, e, mesmo para quem gosta deste sentimento, é um bom entretenimento.