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O PASTOR E O GUERRILHEIRO



RELEMBRANDO OS ANOS NÃO TÃO DOURADOS

por Ricardo Corsetti O novo filme do cineasta brasiliense José Eduardo Belmonte, autor de A Concepção (2006) e Se Nada Mais Der Certo (2008), tem como pano de fundo o conturbado período situado entre 1964 e 1985, ou seja, as duas décadas em que o Brasil viveu sob o regime militar.

Boa reconstituição de época (embora o filme se passe em dois períodos distintos, na verdade) e uma atuação convincente de seu protagonista, vivido por Johnny Massaro (O Filme da Minha Vida, 2017) são, talvez, os únicos méritos do filme. O espírito de rebeldia e contestação que caracterizava o universo jovem da época, mais especificamente situado em 1973, ou seja, período dos "anos de chumbo" do governo Médici, é retratado com competência, inclusive ao apresentar as contradições internas e até certa ingenuidade por conta da geração que se propunha a "mudar o mundo". Destaque, por exemplo, para a cena em que um colega de faculdade da coprotagonista vivida por Júlia Dalavia (Até que a Sorte nos Separe, 2012), do tipo que vive pregando o desapego às coisas materiais, bem como a revolução, etc; aperta o controle do alarme de um automóvel, um Honda Civic, diga-se de passagem, e é questionado por sua amiga: "Ué, trocou de carro?" Ao que ele responde: "Não, este peguei empregado de papai, pois o meu está na oficina mecânica".

É também interessante notar que o filme parece representar uma espécie de, digamos assim, retorno às origens por parte de Belmonte, graças a seu viés razoavelmente autoral. Visto que, após seus primeiros trabalhos acima citados, o diretor havia optado por filmes bem mais comerciais. Por retratar toda a turbulência e contradições internas que caracterizavam aqueles anos não com competente reconstituição de época, O Pastor e o Guerrilheiro talvez valha a conferida - principalmente se for às quartas -, mas deixe seu cérebro em casa.


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