UM ZÉ NINGUÉM CONTRA O PUTIN (Mr. Nobody Against Putin)
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ISTO SIM É UM REALITY SHOW
por Antonio de Freitas
Um Zé Ninguém Contra Putin (Mr. Nobody Against Putin, 2025) foi o vencedor do Oscar de Filme Documentário de Longa-metragem. Se destaca por ter sido produzido de uma forma bem peculiar. Alardeiam o nome do diretor David Borenstein (Império dos Sonhos, 2016) que já tem um nome de peso no gênero e acaba fazendo sombra sobre o homem que deu início à esta obra. Um funcionário bem comum de uma escola para crianças sem formação ou prática no mundo da sétima arte.

Ele é o tal “Zé Ninguém” do título do filme, Pavel Tanlankin. Na casa dos 30 anos, nasceu e cresceu na minúscula cidade de Karabash, um centro até importante de mineração de cobre encravada nos rincões dos Montes Urais na Rússia. Estudou na escola primária da cidade onde sua mãe sempre trabalhou como bibliotecária e, por gostar muito de lidar com as crianças e adolescentes, para ali voltou para trabalhar como um organizador de eventos e cinegrafista amador, documentando todas as atividades da escola.
E assim era a vida deste simpático funcionário que fazia questão de se enturmar não apenas com os alunos, mas com os ex-alunos com quem se encontrava nas horas de laser sem deixar de lado sua tarefa de documentar o dia a dia dos jovens. Uma vida tranquila que é mudada quando Putin resolve invadir a Ucrânia criando a guerra mais sangrenta na Europa desde a Segunda Guerra Mundial. Para dar suporte aos seus atos, o tirano ordena que seja feita uma campanha de doutrinação que leva a uma mudança no currículo nas escolas.

Sob uma rígida vigilância de um professor fanático pelo regime de Putin, o cotidiano da escola é mudado com a inclusão de cerimônias de inspiração patriótica e belicistas assim como aulas de história onde o Ucranianos eram colocados como grandes vilões e traidores e o Governo Russo como uma organização forte e detentora das mais gloriosas e justas intenções. E mais que tudo, queriam criar uma grande mentira, de que as decisões de Putin eram aprovadas por uma imensa maioria dos russos.
Ele, que já era um progressista-pacifista muito discreto, começa a nutrir um sentimento de revolta quando lhe obrigam a documentar e editar conforme as necessidades da ordem vigente. Tudo isto sempre sentindo o olhar maléfico do tal professor com jeitão de personagem de um filme de terror que sempre enviava as gravações para um certo departamento federal.

Após contatar um grupo de documentaristas na Dinamarca, Pavel decide fazer um documentário para ser mostrado ao mundo e denunciar esta situação. A partir deste momento as imagens captadas por ele mudam. Passam de registros quase amadores para uma mão firme e enquadramentos precisos de um verdadeiro espião. E o que se vê é um relato frio e preciso da invasão de uma doutrina, talvez o que aconteceu na Alemanha de Hitler nos anos 30 antes do início da eclosão da Segunda Guerra Mundial. É interessante ver a reação de alunos que varia de estranhamento a total adesão às ideias novas, terminando com alistamento de ex-alunos assim como de parentes, situação que vai terminar em notícias de morte.
Sabendo que não poderia nunca divulgar o que fez, pois ali qualquer atitude de crítica ao governo ganharia a acusação de traição, Pavel foge para a Dinamarca onde, junto com o diretor David Borenstein, criou esta interessante e muito necessária obra de arte que seria a verdadeira definição de “Reality Show”. Um importante relato sobre os modos de agir do autoritarismo de regimes que teimam em surgir para impedir a evolução da humanidade. Com suas ações, o rapaz Pavel Tanlankin, com certeza, deixou para sempre de ser um “Zé Ninguém”.


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