O DIA DO ATENTADO (Patriots Day)


A construção de um herói humano sem mostrar o outro lado


O Dia do Atentado - novo filme de Peter Berg (Hancock, 2008) - baseia-se nos fatos do atentado da Maratona de Boston acontecido em 2013. Por se tratar de uma ocorrência relacionada à segunda mais antiga das maratonas - atrás apenas da maratona olímpica - disputada pela primeira vez em Atenas no ano de 1896 (mas a pioneira de todas as disputadas anualmente) existindo desde o ano de 1897 sem interrupção para os espectadores não inocentes, já aparecem as possibilidades de personagens e ideias sobre as quais o filme será construído ao lidar com uma cicatriz de um povo nacionalista.


Os filmes anteriores do diretor tratam de personagens heróis ou com atos heroicos. A indústria norte-americana trabalha com a questão do herói - seja nos quadrinhos, desenhos animados, séries ou cinema -sempre trazendo o espírito da nação e a defesa dela no caráter e ação das personagens. Todas as atitudes são válidas para continuar a existência desse povo tão meritocrático. Poucos são os anti-heróis ou o herói questionador de tais valores sociais. Sempre a reafirmação, seja pelo drama ou na comédia. Essa não é uma particularidade dos EUA, as antigas civilizações também caracterizavam seus valores em guerreiros e reis nas suas tragédias e epopeias, mas é que - com a alta proliferação de conteúdo cinematográfico em relação ao tema -, uma percepção de repetição incessante maquiavélica se coloca como pré-requisito para se adentrar nesses filmes.


O longa apresenta a trajetória de um policial, Tommy Saunders (Mark Whalberg, de Horizonte Profundo: Desastre no Golfo, 2016) em seu último serviço para retomar o posto que havia antes. Este trabalho será na Maratona de Boston. Até o momento nada fora do comum na rotina da profissão. Um panorama do cotidiano da cidade mostra pessoas comuns antes da explosão. Um policial mais velho, uma estudante, um imigrante, um guarda universitário, um jovem casal. Por mais que essas personagens apareçam no início e sejam "pinceladas" pelo restante do filme, todos de alguma forma estarão ligados ao incidente das explosões, como vítimas ou peças fundamentais para o desenrolar da investigação comandada pelo agente especial do FBI, Richard DesLauriers (Kevin Bacon, de The Following, 2013-2015).

Em contraposição à trajetória do policial Tommy, vemos a dupla de irmãos muçulmanos Dzhokhar Tsarnaev (Alex Wolff, de Casamento Grego 2, 2016) e Tamerlan Tsarnaev (Themo Melikidze, de Beautiful Something, 2015) prepararem o atentado. Desde a fabricação das bombas feitas com uma panela de pressão e parafusos, irem à Maratona com suas mochilas e as deixarem nos locais escolhidos, e fugirem ao serem descobertos com suas imagens divulgadas na televisão. A perseguição da polícia, o tiroteio e explosões na rua de um bairro é daqueles momentos em que mostra o poder de engradecimento de uma situação real pela ferramenta do cinema.


O hiperrealismo proposto pela obra ao mesclar as cenas de ficção com imagens reais e características de um vídeo jornalístico funcionam ao criar a tensão no espectador perante a aflição da perseguição construída pelo enredo, apesar de tendenciosa para o lado norte-americano. Nesse momento surge uma questão: por que torcer para os policiais? A visão deles e das pessoas envolvidas é facilmente instaurada ao querer restabelecer a ordem das coisas, mas a visão do porquê o ato foi feito pelos irmãos não tem espaço na narrativa. Levemente é tocada quando estão fugindo ao perguntarem ao jovem chinês se ele sabe que os atentados do 11 de setembro foram elaborados pelo próprio governo.


O filme é bem construído ao lidar com seu assunto e mostra em cena sua grande produção, seja pelos efeitos das explosões, perseguições, figurantes na maratona e relação de boas imagens em variados formatos, como as imagens de segurança das ruas e dos estabelecimentos. É sempre interessante ver a potencialidade de contrução de um roteiro e de um diretor ao lidar com múltiplos enredos e personagens. O Dia do Atentado não é um filme inovador nessas questões, mas mexe com a emoção de parte dos espectadores. Muitos personagens poderiam ser melhor explorados no enredo para amenizar a ideologia tendenciosa, pois grandes nomes da atuação tem pouco reconhecimento dentro da obra, como John Goodman (O Grande Lebowski, 1998) e J. K. Simmons (Whiplash, 2014).


O final do filme excede ao trazer depoimentos das vítimas, policias e governador envolvidos no atentado, mas reafirma ser uma homenagem e celebração do espírito norte-americano romantizado.


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