
ZOADO, HISTÉRICO E DELICIOSO
por Antonio de Freitas
Bob Esponja: Em Busca da Calça Quadrada é a volta do querido personagem que foi lançado na TV no início deste século pelo canal Nickelodeon que sempre apresentou produtos de personalidade e qualidade que os levaram ao topo do sucesso com atuação diversificada em mais de um campo. Não foi surpresa nenhuma que este desenho animado que vai na direção contrária da tendência de realismo e tridimensionalidade das produções atuais tenha sido lançado no cinema.

Isto mesmo, o departamento de animações da Paramount não se deixa levar pela onda geral e entra uma bela mistura de animação com cara de tradicional misturada com computação gráfica. A animação chega a ser simples demais, mas só ao ponto de dar o charme que o desenho tem desde quando foi lançado. Está tudo ali, os excessos de vinhetas sonoras, ceninhas que evocam detalhes da cultura pop como filmes famosos em momentos quando até se quebra a quarta parede.
Levando em conta o sucesso com e a empatia do público infantil que já cresceu, Bob Esponja acorda de manhã e descobre que cresceu também. Agora pode entrar em uma montanha russa conhecida como a mais perigosa do universo marinho onde vive. Ao lado de seu amigo Patrick Estrela tenta entrar na Montanha Russa, mas fica com medo e dá uma desculpa para não ir porque tem um assunto a tratar com o Sr. Siriguejo. Este ao notar que Bob está com medo se vangloria de seu passado como marinheiro valente que viajou por todos os mares. Este é o estopim para que ele se aventure em uma missão para provar que é valente e merecedor de um diploma de Bravura.

O grande número de personagens do mundo marinho não faz presença nesta aventura, mas estão muito bem representados pelos já citados Patrick e Sr. Siriguejo e os coadjuvantes Lula Molusco, o Caracol Gary e o vilão Holandês Voador. Em ritmo de Game Show a aventura segue movimentada e com muita música onde cada um dos personagens dá seu show particular em momentos de palhaçada fiéis ao tom que faz sucesso há mais de 25 anos. O humor é infantil, mas não esquece dos maiores que vão rir muito.
Seguindo por um caminho seguro e fiéis as características originais do personagem, a Paramount soube entregar uma produção que consegue escolher o melhor da linguagem de duas mídias, a TV e o cinema, para assim ser uma obra divertida e agradar até á crianças que não conhecem o personagem. E mais ainda, tocar na memória emocional daqueles que um dia foram crianças e assistiram o desenho na TV e hoje já são adultos. E estes vão se divertir muito se esquecerem a idade para se deleitar com este desenho zoado, histérico e delicioso.

À MARGEM DE BUENOS AIRES
por Ricardo Corsetti
Na última terça-feira (21/10), à convite da distribuidora Vinny Filmes, vi, em primeira mão, a co-produção entre Brasil, Argentina e França, o longa-metragem O Prazer É Meu.
Filme dirigido pelo brasileiro Sacha Amaral (The Male Gaze: Boy Trouble, 2024) que, há vinte anos, reside na Argentina.
Filme bem dirigido e com bom elenco, encabeçado pelo ator argentino Max Suen (A Few Feet Away, 2024), que vive o simpático picareta "Antônio".

Apesar do competente trabalho empreendido pelo jovem Sacha Amaral, inclusive no que se refere à direção de atores, o filme, porém, possui uma trama bastante frágil e previsível. E embora o ritmo narrativo seja bom e a duração "enxuta" (apenas 95 minutos), a frequente recorrência à "fragilidade emocional" do protagonista que, na prática, camufla um mau-caratismo congênito, chega a cansar um pouco em alguns momentos. E só não prejudica em demasiado o resultado final graças ao carisma e talento dos personagens coadjuvantes.
Em resumo, embora se trate um filme rodado na Argentina e com elenco 100% argentino, O Prazer É Meu carece muito de uma qualidade básica de um típico filme argentino: roteiro de qualidade.
Após a exibição do filme, todos os presentes foram convidados a participar de uma festa no bairro do Butantã, na sede da jovem produtora Quadrophenia, onde pudemos conhecer muita gente interessante e atuante na área audiovisual.
Noite bastante proveitosa, portanto.
Atualizado: 17 de out. de 2025

PADRÃO COREANO COM INSPIRAÇÃO VINDA DO JAPÃO
por Antônio de Freitas
Ruídos (Noijeu, 2024) é mais uma produção de terror de uma das indústrias cinematográficas que mais crescem no mundo, a da Coréia do Sul. Após um maciço investimento em tecnologia, estúdios, educação e preparação de profissionais de todos os setores do cinema, a Coréia do Sul é hoje um dos concorrentes mais fortes de Hollywood. E, assim, uma verdadeira grife que virou sinônimo de criatividade e qualidade das produções.

Nos últimos anos recebemos uma grande leva de filmes e séries com roteiros surpreendentes e com altíssima qualidade na produção que ganhou mais notoriedade com o espetacular desempenho do premiadíssimo Parasita (Gisaengchung, 2019). O fato é que existe o modelo Coreano de filmes e séries e isto acaba gerando uma norma para a produção de mais e mais produtos que acabam repetindo as mesmas ideias e maneirismos.
Mas o diretor e o roteirista deste filme, ambos estreantes, resolveram olhar para além do mar e se inspirar em outra indústria de cinema que ganhou uma notoriedade no campo dos filmes de terror na virada do Século XXI. O cinema japonês tomou o mundo de assalto com uma leva de filmes com uma proposta de histórias cheias de atmosfera, desenvolvimento lento, personagens com profundidade e exploração de temas variados que acabam levando à uma impactante sequência ou cena final.
No filme em questão temos a exploração do problema do crescimento da densidade populacional da Coréia do Sul que acabou levando à problemas sérios de habitação quando as pessoas de classe média e baixa passam a viver praticamente amontoadas. E, no caso, é com a sensibilidade da cultura em relação ao barulho temos uma situação de choque quando as pessoas passam a hostilizar umas as outras.

Joo-young, uma moça que com deficiência auditiva descobre que sua irmã Joo-hee com a qual está brigada há anos está desaparecida. Procurando por pistas, ela vai ao apartamento da irmã onde também morava antes de cortarem as relações. O edifício onde se situa o apartamento é um espetáculo à parte com uma atmosfera pesadíssima de energia ruim e solidão, um monstro de concreto com dezenas de apartamentos por andar que forma uma imagem que nem precisa de explicações, sendo a materialização da proposta do filme de explorar a situação neurótica dos habitantes desse tipo de bairro.

Ali, em sua luta para encontrar a irmã, Joo-young vai topar com vizinhos sinistros e barulhos esquisitos que acontecem durante a noite que a levam a questionar se está perdendo a razão. O diretor conduz com maestria essa jornada sensorial onde cada estalar, ou ranger fora do lugar parece conter uma ameaça em um desenrolar de cenas que começam como parte de um filme de investigação e vai pouco a pouco se transformando em terror sobrenatural. Há poucos diálogos e muitas cenas com ação lenta em um ritmo enervante até um desfecho que surpreende e, apesar de pontas soltas e algumas incongruências, deixa várias perguntas que podem levar a várias interpretações sobre o que realmente acontece naquela verdadeira aberração da arquitetura que é o conjunto de apartamentos que se transforma em um verdadeiro personagem.
Ruídos não chega a ser um grande filme, mas souberam aqui juntar elementos das duas culturas já citadas e, apesar de vários tropeços, tem uma produção muito bem realizada e elementos suficientes para agradar aos fãs de filmes de terror. Principalmente a aqueles que admiram essa onda de filmes asiáticos que já influenciaram o ocidente contribuindo para o que chamam agora de “pós-terror”.






































