
TRAJETÓRIA DE UM PEQUENO GIGANTE
por Ricardo Corsetti
Excelente cinebiografia de um pequeno gigante Charles Aznavour (1924-2018), ótimo cantor e excelente compositor, além de um autêntico ícone da música/cultura francesa.
Aznavour é - aqui - brilhantemente interpretado pelo sempre ótimo Tahar Rahim (O Profeta, 2009). Sendo que o único senão do filme é mesmo a pesada maquiagem utilizada para "transformá-lo" em Aznavour, visto que, embora ótimo ator, Rahim, na verdade, não possui nenhuma semelhança física real com o cinebiografado.

No mais, porém, o filme é muito bem dirigido, tem ótima fluência e desenvolvimento narrativo, além de apresentar um primoroso trabalho de direção de arte (cenografia e figurinos) em termos de reconstituição de época.
Merece também destaque, a forma bastante direta e objetiva em que apresenta a relação profissional e de amizade entre Aznavour e outro ícone supremo da música popular francesa: Edith Piaf (1915-1963). Se por um lado Piaf foi, inegavelmente, muito importante na fase inicial da carreira de seu jovem pupilo, por outro lado, a verdade é que ela - seja por "ciúme" de seu inegável talento, ou até mesmo, medo de perder o amigo a longo prazo - também acaba, digamos assim, o podando bastante e, muitas vezes, tentou fazê-lo desacreditar de seu talento, dizendo-lhe, por exemplo, que "sua voz não era boa". Em resumo, outro grande mérito do filme, é nos mostrar que os deuses também são humanos em suas atitudes.

Outra passagem real, aliás, de "Monsieur Aznavour" que merece destaque é a impagável cena em que Aznavour e seu amigo simplesmente gastam todo o dinheiro que haviam ganho, até então, para comprar suas passagens aos EUA, indo atrás de Edith Piaf, crendo lá chegando, serem incluídos na turnê norte-americana da diva, em meados dos anos 50. Detalhe: eles simplesmente não faziam ideia de que era necessário o visto de autorização em seus passaportes para entrarem nos EUA. Resultado: são imediatamente presos e, durante uma espécie de entrevista com a agente de imigração, ao provarem serem cantores e conhecerem os principais standards do jazz norte-americano, conseguem assim, finalmente, o visto de autorização para lá permanecerem.
Pouco tempo depois Aznavour retorna à França. Após muita batalha, alcança a consagração como cantor e compositor popular. Mas, claro, não sem antes - na qualidade de filho de refugiados argelinos - descobrir na pele que a famigerada doce terra do "liberdade, igualdade e fraternidade", na prática, foi e sempre será, um autêntico poço de preconceito e intolerância.
Com distribuição da Imovision aqui no Brasil, Monsieur Aznavour, sem a menor dúvida, merece uma boa conferida.

O SEMPRE INEVITÁVEL CHOQUE DE CLASSES
por Ricardo Corsetti
Interessante e competente drama com toques de suspense policial onde, claro, o grande destaque é a presença da autêntica diva suprema do cinema francês contemporâneo: Isabelle Huppert (A Professora de Piano, 2001). Mas, justiça seja feita, a jovem e bela Hafsia Herzi (Rapto, 2024), também não faz feio como protagonista deste, ao mesmo tempo, belo, sensível e trágico filme.

Filme de estreia na direção da experiente atriz e assistente de montagem Patricia Mazuy, A Prisioneira de Bordeaux aborda a improvável relação de amizade entre duas mulheres oriundas de universos sociais e culturais muito distintos, mas com algo de fundamental em comum: ambas possuem seus companheiros - atualmente - encarcerados no mesmo presídio.
Nesse contexto, apesar da aparentemente real amizade que surge inesperadamente entre elas, cedo ou tarde, as diferenças (sobretudo econômicas) que existem acabam se revelando, na prática, intransponíveis, gerando uma série de mal-entendidos, culminando num trágico - e ao mesmo tempo poético - desfecho.
Obs: a atuação de Isabelle Huppert é construída por meio de uma série de sutilezas e com, digamos, um senso de humor ácido e bastante peculiar.

E aproveito o contexto do filme em questão, para comprovar minha experiência pessoal, ao longo da vida, no sentido de também tentar conviver e acreditar na amizade de gente que faz parte de um universo muito diferente/distante do meu, a dica é sempre: nunca confie, de fato, na generosidade de gente rica, pois ela sempre terá, mais adiante, um preço muito alto a ser pago.
Segundo lançamento da distribuidora Autoral Filmes no Brasil, A Prisioneira de Bordeaux estreou em 7 de agosto nos cinemas de todo o país e, sem dúvida, merece uma boa conferida.

FILME “MUDERNIM” DE ARAQUE
por Antonio de Freitas
A Duquesa Vingadora (Duchess, 2024) é um filme de Neil Narshall (Cães de Caça, 2002) e isto basta para gerar certo interesse. Apesar de ser um dos culpados por aquele péssimo Hellboy - de 2019 -, ele foi o criador de um dos melhores filmes de lobisomem da história que é o Cães de Caça (Dog Soldiers, 2002) e do claustrofóbico e enigmático Abismo do Medo (The Descent, 2005), que gera discussões e teorias até hoje. Por isso, apesar do tropeço monstruoso, ainda existe esperança de ver algum filme dele que, pelo menos, tenha um pouco da originalidade e ousadia dessas duas joias do cinema.

O filme começa com um homem tipo mafioso entrando em um quarto onde uma ruiva o espera na cama vestindo uma lingerie sensual. Há um diálogo repleto de clichês de filme de gangster e a cena termina em um banho de sangue bem exagerado. A imagem é congelada e os nomes dos personagens aparecem sobre cada um deles e seguidos de uma ligeira apresentação de uma voz de mulher que, logo depois sabemos, vai ser a protagonista e narradora da história. Ela é Scarlett Monaghan, interpretada com uma raríssima falta de talento por Charlotte Kirk (Oito Mulheres e um Segredo, 2018). Sua atuação deixa a dúvida sobre o que estava pensando o diretor quando aceitou uma atriz que nem consegue franzir a testa (excesso de botox?) em um filme repleto de emoções fortes.
E Scarlett nos conta sua história de vida começando com sua vidinha medíocre de trambiqueira de boates, onde seduz homens para lhes roubar as carteiras até o momento que conhece um misterioso e elegante homem com quem tem uma forte paixão à primeira vista. A partir daí ela entra em turbilhão de eventos repletos de muita violência, em cenas super movimentadas, com lutas e tiroteios orquestrados para serem o mais espetacular possível, com diálogos e movimentos de câmera pretensamente criativos para soarem como parte de um filme ousado, seguindo a moda dos filmes "moderninhos", recheados de referências da cultura pop que seguiram o sucesso de Quentin Tarantino (Era Uma Vez em Hollywood, 2019). E vale muito lembrar também de Guy Ritchie (A Fonte da Juventude, 2025)

E é isto que A Duquesa Vingadora é: uma tentativa de fazer um filme nesse estilo, com umas cenas de violência exagerada - beirando o TRASH - convivendo com outras que desbragadamente expõem suas inspirações em outros estilos cinematográficos. E tudo isso com uma protagonista bonita, mas inexpressiva, que fica apertando os olhos achando isso sexy, mas acaba parecendo que ela tem uns 6 graus de miopia e está sem óculos. Definitivamente um filme moderninho de “Black Friday”. Ou melhor, de “Black Fraude”.









































