
PARODIANDO A SI MESMO, EM PRIMEIRO LUGAR
por Ricardo Corsetti
É fato indiscutível que a benção/maldição das intermináveis franquias no cinema norte-americano, realmente, veio pra ficar, pois, simplesmente não há gênero cinematográfico que tenha ficado de fora dessa tendência. Do romance juvenil (disfarçado de terror) Crepúsculo (Catherine Hardwicke, 2008) ao teenager slasher de Pânico (Wes Craven, 1996), ninguém ficou mesmo imune à, digamos assim, reciclagem sem fim.

No já longínquo ano de 2000, os irmãos atores/roteiristas: Marlon e Shawn Wayans (sim, os inesquecíveis protagonistas da pérola As Branquelas (Keenen Ivory Wayans, 2004), tiveram a grande sacada de parodiar de forma cômica, a então - e extremamente bem sucedida - franquia Pânico, iniciada em 1996, por Kevin Willianson e Wes Craven (1939-2015), adicionando insanas pitadas de humor ao terror adolescente da franquia base.
Agora, exatamente 26 anos após o primeiro filme de sua insana - e bem sucedida - franquia, os irmãos Wayans lançam Todo Mundo Em Pânico 6, seguindo, basicamente, a mesma fórmula utilizada, ao longo desses 26 anos: humor politicamente incorreto e paródico.
Por um lado, é delicioso ver que - em pleno 2026 -, ou seja, num momento em que o cinema internacional (sobretudo norte-americano) se tornou absolutamente refém do politicamente correto imposta pelas demandas e militância identitária, é ainda possível existir um filme produzido por um grande estúdio, inclusive, que não tem medo de "chutar o balde", se utilizando de piadas que não poupam absolutamente ninguém: negros, homossexuais, etc.

Porém, embora divertidíssimas, as piadas de Todo Mundo Em Pânico 6, muitas vezes, talvez até pelo fato de buscarem sacanear o "bom mocismo" do qual o cinema contemporâneo se tornou refém, acabam, no entanto, se revelando extremamente previsíveis.
Felizmente, para equilibrar o jogo, algumas atuações, são simplesmente impagáveis como, por exemplo, a mãe irresponsável e viciada - embora politicamente conservadora -, vivida pela ótima Anna Faris (A Casa das Coelhinhas, 2004) e, claro, o influencer maconheiro, vivido por Marlon Wayans (As Branquelas, 2004) em atuação, aliás, claramente inspirada no inesquecível surfista lesado, vivido por Sean Penn no clássico Picardias Estudantis (Amy Heckerling, 1982).
Entre erros e acertos, no geral, o saldo é bastante positivo em Todo Mundo Em Pânico 6, graças a sua tentativa de sacudir a irritante monotonia "engajada" do cinema de hoje em dia.

A ODISSÉIA DE PARTHENOPE
por Eugênio Doroteu
Uma mulher nascida no mar de Nápoles busca a felicidade durante os longos verões de sua juventude, apaixonando-se por sua cidade natal e seus muitos personagens memoráveis.

Paolo Sorrentino (A Grande Beleza, 2013) constrói, em Parthenope – Os Amores de Nápoles, uma odisseia existencial que acompanha a vida da personagem título, vivida por Celeste Dalla Porta, desde o seu nascimento nas águas de Nápoles nos anos 1950 até a sua velhice, traçando um panorama que entrelaça as desilusões amorosas, as perdas familiares e a busca acadêmica de uma mulher comum que carrega o nome do mito fundador de sua cidade.
Sorrentino consolida o que pode ser visto como uma trilogia estética e temática iniciada em A Grande Beleza, e perseguida em Juventude, de 2015, uma vez que o cineasta retorna aos seus temas prediletos: a passagem implacável do tempo, a decadência aristocrática, a melancolia da memória e a busca incessante pelo sublime em meio ao grotesco da condição humana. Se Roma e os Alpes Suíços serviram de palcos anteriores, aqui a mítica ilha que dá título ao filme e a própria cidade de Nápoles funcionam como a costura histórica, cultural e geográfica essencial para o arco dramático de Parthenope, onde a paisagem mediterrânea não é mero cenário, mas o espelho da alma da protagonista.

O filme se lança em uma busca obsessiva por sua própria beleza plástica, capturada em uma fotografia que personifica esse ideal estético quase como um fetiche na figura de Celeste Dalla Porta; a câmera não esconde que a idolatra, transformando sua juventude e seus traços em uma representação da perfeição.
Contudo, por trás desse deslumbre quase hipnótico, Sorrentino mergulha em uma camada de amargura ao comentar a solidão incontornável que, na visão do diretor, a beleza inevitavelmente traz, sugerindo que ser o objeto de desejo e de adoração funciona como uma barreira invisível, condenando a protagonista a uma existência isolada, onde todos a enxergam, mas poucos a alcançam de verdade.
Parthenope – Os Amores de Nápoles está disponível no catálogo da Filmelier +.

por Ricardo Corsetti
No dia 22/04, foi realizada, em São Paulo, a abertura do 2º Festival Imovision de Cinema Europeu, com a presença de convidados ilustres, tais como o renomado diretor espanhol Julio Medem (autor dos clássicos Os Amantes do Círculo Polar (1998) e Lucia E O Sexo, (2001), divulgando seu mais recente trabalho: 8 Décadas de Amor (2025) que, obviamente, foi exibido durante o festival.
Também esteve presente a bela atriz italiana Barbara Ronchi (Belos Sonhos, 2016), divulgando a cinebiografia por ela protagonizada: Diva Futura - Cicciolina E A Revolução do Desejo (2025), longa também exibido, durante o festival.
Conforme foi apresentado pelo proprietário da distribuidora Imovision e também do cinema paulistano Reserva Cultural, Jean-Thomas Bernardini, entre os dias 23 e 29/04, serão exibidos um total de 14 filmes inéditos e premiados, oriundos de 6 países europeus: França, Alemanha, Itália, Espanha, Suíça e Polônia.
Após uma breve apresentação e debate com os já citados convidados sobre os filmes dos quais participaram, a sessão de abertura, finalmente foi inaugurada pelo divertido filme polonês Erupcja (2025), longa de estreia do jovem diretor Pete Ohs.
Divertido misto de comédia romântica com drama, Erupcja tem ritmo frenético e chega a lembrar os primeiros trabalhos do diretor britânico Danny Boyle - Cova Rasa (1994) e Trainspoting (1996), além de possuir algumas semelhanças com o estilo do movimento dinamarquês Dogma 95, idealizado pelos diretores Lars Von Trier (Os Idiotas, 1998) e Thomas Vinterberg (Festa De Família, 1998), tais como: narração em off, flerte com o melodrama e estética crua e direta.
Protagonizado pelas belas e talentosas atrizes: Charlie XCX (UglyDolls, 2019) e Lena Góra (Uma Noite No Jardim de Infância, 2024), Erupcja pode até não ser um grande filme, mas cumpre bem sua proposta de nos apresentar, de forma leve e bastante jovem, as inevitáveis dores e delícias, sempre associadas aos relacionamentos e consequentes (inevitáveis) desilusões amorosas.
Em sua segunda edição, o Festival Imovision de Cinema Europeu, sem a menor dúvida, já é um marco e ponto de encontro para a cinefilia brasileira e, sobretudo, paulistana e carioca, afinal, vale lembrar que ele ocorreu, simultaneamente, em São Paulo (capital) e Niterói (Rio de Janeiro).
E que venha logo a terceira edição do Festival no ano que vem. Já estamos ansiosos!









































