Atualizado: 3 de out. de 2021

CONSERVADORISMO CONSISTENTE E CONTUNDENTE
por Ricardo Corsetti
Mesmo quem, assim como eu, normalmente não simpatiza com os grupos conservadores que, tanto no Brasil quanto ao redor do mundo, condenam veementemente a prática (legal ou ilegal) do aborto, dificilmente conseguiria não colocar em dúvida suas convicções, ao ver este interessante e já candidato a polêmico filme O Direito de Viver.
Embora abuse do tom melodramático em alguns momentos, o filme escrito e dirigido pela estreante Cathy Allyn e Nick Loeb (Carga Preciosa, 2016) se apoia em argumentos contundentes para sustentar sua posição claramente anti-aborto.

Para início de conversa, o longa nos apresenta o fato real e pouco conhecido de que uma das pioneiras na defesa da prática do aborto nos EUA era uma mulher de origem social privilegiada que se associou à Ku Klux Klan (organização assumidamente racista) para realizar abortos em larga escala em mulheres negras visando "conter a expansão descontrolada de bebês negros na América". Detalhe: a primeira associação pró aborto por demanda (sem ser motivado por estupro ou risco de morte à mãe) foi criada em homenagem justamente a essa mulher.
Após este prólogo de apresentação da trama, O Direito de Viver se concentrará no embate entre o Doutor Aborto (Bernard Nathanson) e a Doutora pró-vida Mildred Jefferson, a partir do final dos anos 60, que se estende por pelo menos duas décadas.
A partir daí, o filme procura apresentar um perfil puramente oportunista por parte do Doutor Aborto ao se associar a grupos feministas e progressistas, em favor da prática e legalização do aborto por demanda, em todo o território norte-americano.

A narrativa é eficiente ao apresentar seu ponto de vista contrário ao aborto, ao questionar a partir de que momento o feto representa de fato uma vida humana já formada e não "apenas um bolo disforme de sangue e tecido", conforme chega a classificar o feto, o Doutor Bernard Nathanson.

Além disso, vemos o progressivo arrependimento e drama de consciência vivido pelo já então rico e famoso médico, ao constatar que suas hipóteses acerca da "ausência de vida" nos milhares de fetos humanos que ele eliminou, estavam erradas. Fato que se deveu, segundo o doutor Nathanson, à inexistência do ultrassom na época em que ele começou a realizar abortos em grande escala, o que "não lhe permitiu ver o tamanho do erro que estava cometendo", conforme as palavras do próprio.
O principal ponto baixo do filme, porém, é a escolha de um de seus próprios diretores, ou seja, Nick Loeb, como protagonista. Pois ele sinceramente não tem carisma (ou mesmo talento dramático) suficiente para dar conta de um personagem (real) tão denso e historicamente importante.
Felizmente, para compensar tal erro, O Direito de Viver conta com um elenco coadjuvante de primeiríssima, com destaque para a bela e talentosa Stacey Dash (Nunca É Tarde Para Amar, 2007) como a célebre doutora Mildred Jefferson e também para a dupla de juízes vividos por John Voight (Perdidos na Noite, 1969) e William Forsythe (Fúria Mortal, 1991), além do ex-galã oitentista Steve Guttenberg (Loucademia de Polícia, 1984) como um importante político. Obs: o ótimo trabalho de reconstituição de época da direção de arte também é digno de nota.
A cena, já próxima ao desfecho do filme, em que o próprio Doutor Aborto vê na tela do ultrassom um feto, já visivelmente com aparência humana constituída, sendo literalmente despedaçado e arrancado do ventre materno é mesmo contundente, a ponto de me fazer questionar minha postura em relação ao aborto.
Filme realmente necessário e pertinente à eterna discussão sobre o tema.
Atualizado: 2 de out. de 2021

JAMES BOND NO REINO DA LACRAÇÃO
por Ricardo Corsetti
Realmente, a despedida de Daniel Craig (Entre Facas e Segredos, 2019) do papel do mais famoso espião da história do cinema, merecia um filme melhor. Não que Sem Tempo Para Morrer seja necessariamente ruim. Conforme já era de se esperar, é recheado de cenas de ação de tirar o fôlego. Pena que não muito mais do que isso.

Em termos de roteiro, aliás, embora a trama seja relativamente fluente e clara, algumas escolhas na composição do personagem central são bastante equivocadas, pois houve uma preocupação exagerada e artificial no sentido de readaptar o clássico personagem à correção política que rege o mundo (ou, ao menos, o discurso) contemporâneo. Para tanto, se promoveu uma verdadeira "assexualização" de Bond. Pois, nos dias atuais, parece que sexo virou crime. Por isso mesmo, ao longo de 2 horas e 43 minutos de filme, praticamente não há contato físico entre o agente e as demais personagens da trama, nem mesmo com sua namorada, vivida por Léa Seydoux (Azul é a Cor Mais Quente, 2013). Ou seja, adeus bond girls na forma como conhecíamos até aqui.
Não, eu não estou dizendo que Bond deveria ser apresentado como um anti-herói cafajeste de filme noir. Não, não é isso. Entendo a necessidade de readaptar o personagem ao mundo contemporâneo, apenas acho que não era preciso pesar tanto a mão na construção deste "homem desconstruído", na linha "me perdoe por ser homem", pois tudo soa muito artificial devido a tal exagero politicamente correto.
Quanto aos demais personagens da trama, Rami Malek (Bohemian Rhapsody, 2018) não mostrou a que veio e, portanto, não me convenceu como vilão, apresentando uma atuação morna e caricata, talvez por acreditar que sua aparência física, digamos assim, exótica, iria por si só resolver tudo. Ledo engano.

A bela atriz cubana Ana de Armas (Bata Antes de Entrar, 2015) é puro carisma. Pena que apareça tão pouco tempo em cena. Poderia ter sido bem melhor aproveitada e render uma bond girl de primeiríssima, mas, pelas razões expostas, tudo ficou apenas na promessa.
Apesar da já citada boa cadência narrativa, há alguns furos evidentes e também algumas situações muito previsíveis e, ao mesmo tempo, pouco verossímeis no desenrolar da trama. Embora eu confesse não simpatizar lá muito com Daniel Craig como ator, reconheço que ele está atuando bem, pena que seja tão prejudicado pela necessidade de "lacrar" dos produtores, nos entregando um James Bond assexuado, insípido e asséptico naquela que é, aliás, a possível despedida definitiva do velho personagem (fato que está subentendido no filme). Mas, ainda que Bond, enquanto arquétipo de diversas gerações, não desapareça por completo e sobreviva à saída de Mr. Craig da franquia, uma coisa é fato incontestável: o astro britânico realmente merecia um desfecho melhor.
Méritos técnicos à parte, 007 - Sem Tempo Para Morrer, em termos gerais, decepciona e muito.

A POLÍTICA COMO TRAGÉDIA (OU TERROR)
por Ricardo Corsetti
Ao assistir a produção guatemalteca A Chorona, impossível não traçar automaticamente um paralelo com a contemporânea tendência de ascensão ao poder da nova extrema-direita, em praticamente todos os continentes.

Filme eleito para ser o representante da Guatemala na última edição do Oscar, narra com muita competência a história fictícia, mas absolutamente verossímil, de um general hoje aposentado, mas que no passado teria sido responsável por um autêntico genocídio da população guatemalteca de origem indígena, sob o argumento de pretendia "melhorar a raça de seu povo e também combater o comunismo".
Impressionante ver o quanto esse discurso de um fictício líder político se faz presente nas falas e atitudes de políticos reais. E ,detalhe: não só de ditadores que tomam o poder à força, mas também no discurso de líderes democraticamente eleitos, como foi o caso recente de Trump, por exemplo.
Chega a ser tragicômico constatar o quanto o manjadíssimo e já caquético discurso de "vamos limitar as liberdades individuais, visando combater o comunismo", de tempos em tempos, ressurge com tudo no discurso de novos candidatos a líderes políticos.

Mais escabroso ainda é o discurso de "melhoramento da raça" ou de "limpeza". E, infelizmente, basta relembrar o ocorrido na ex-Iugoslávia, em meados dos anos 90, para vermos o quanto esse discurso de matriz claramente nazista renasce ao longo da história da política internacional.

Mas, voltando ao filme propriamente dito, o diretor estreante Jayro Bustamante conduz a trama com muita habilidade e duração enxuta (apenas 1h37min). Utiliza planos longos e movimentos discretos, associado a uma bela fotografia, para contar essa trágica história de matriz familiar, apresentando a problemática família do general Enrique (Julio Diaz), mas que acabou afetando os destinos de toda uma nação.
A Chorona somente peca no desenvolvimento da subtrama de terror, baseada numa velha lenda (crendice) latina acerca de uma jovem mulher (falecida) que viria buscar e afogar os filhos de outras famílias para vingar a morte de seus próprios filhos no passado.
Essa subtrama é apresentada e desenvolvida de forma confusa, embora não chegue a prejudicar a força e eficácia do drama familiar em que se ampara a história principal do filme.
Tecnicamente bem realizado e com história contundente, A Chorona, apesar de alguns pequenos deslizes na inclusão da mencionada subtrama, sem dúvida tem força e vigor suficientes, para justificar sua recente indicação ao Oscar de melhor filme estrangeiro no ano passado.






































