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CINE TESTOSTERONA


por Ricardo Corsetti


A primeira coisa a ser observada em Cry Macho: o caminho para a redenção é mesmo o fato de que somente o velho Clint Eastwood (A Troca, 2007) pra me fazer gostar de um filme que basicamente gira em torno de um ex-peão de rodeio, vivido pelo próprio Clint e um garoto fascinado por brigas de galo (o estreante Eduardo Minetti).


Típico exemplo das contradições que sempre caracterizaram a obra do veterano cineasta/ator, um conservador republicano cujo cinema é marcado por um belíssimo humanismo, por exemplo. Em Cry Macho, apesar do que normalmente poderia se esperar de um filme com esse ponto de partida, o que impera ao longo da trama é, acredite se quiser, o amor incondicional pelos animais.

Esta espécie de faroeste moderno, aliás, traz semelhanças e claras influências de alguns dos melhores trabalhos do velho Clint, tais como: Os Imperdoáveis (1992) e Gran Torino (2008), por exemplo.


Eis um belo filme sobre o poder da amizade, sobretudo. Embora longe de estar entre os melhores trabalhos de Mr. Eastwood, Cry Macho é mais uma demonstração acerca do talento e domínio narrativo que o veterano diretor inegavelmente ainda possui, no momento em que se propõe a contar uma história.


Merece também destaque o belo trabalho de fotografia que explora com maestria as cores quentes e o clima árido texano, já próximo à fronteira com o México.


Num momento em que boa parte dos ídolos (tanto no cinema quanto, sobretudo, na música) de minha geração já se foram, é mesmo lindo ver a vitalidade que do alto de seus 90 anos, o eterno "pistoleiro sem nome" da trilogia dirigida por Sergio Leone (Era uma Vez no Oeste, 1968) - um de seus principais mentores - demonstra, dando claros sinais de que ele ainda tem muita história pra contar e, portanto, muitos filmes ainda a realizar. Obs: que ótimo!





IDEIAS DE TOLSTOI


por Cláudia Anaf


O SEGUNDO FESTIVAL DE CINEMA RUSSO, organizado pela ROSKINO e com o apoio do Ministério da Cultura da Rússia, dar-se-á de 16 de Setembro a 10 de outubro online em sessões transmitidas pela Supo Mungam Plus em parceria com SPcine Play.

Um dos filmes que compõe o festival é A História de uma Nomeação, da cineasta Avditoya Smirnova (Kokoko, 2012), diretora e roteirista inspira-se num fato real da vida de Leon Tolstói, quando o mesmo estava no exército.


Smirnova, desde a infância interessou-se por duas coisas: literatura e cinema. Adulta realizou vários filmes baseados na literatura, e a presente obra é a segunda inspirada no grande escritor russo, Tolstoi.


O drama de época, se desenrola num regimento em Tula, onde o tenente Grigory Kolosktev, imbuído de ideias avançadas para a época, estava a serviço. Ocorre um crime, e por conta disso o acusado é levado à corte marcial. O tenente pede ajuda ao Conde Tolstoi que decide proteger os inocentes.


O filme que recebeu vários prêmios na Rússia é uma história trágica, de cortar o coração, na qual as ideias de Tolstoi provocam uma reflexão sobre a complexidade das escolhas, a lealdade aos ideais e a justiça.



Os atores principais Evgeni Kharitonov (Graveyard Shift, 2018), no papel de Tolstoi, e Alexei Smirnov (Vnutri Lapennko, 2019 como Grigory, desempenham muito bem seus papéis e emocionam fortemente o espectador.


Ao que parece, A História de uma Nomeação é uma pequena joia a ser descoberta pelo espectador.




Atualizado: 13 de set. de 2021




UM CASO DE AMOR PELA INTERNET


por Alvair Silveira Torres Junior


Sheena 667, de Grigoriy Dobrygin, que será exibido no 2º Festival de Cinema Russo em São Paulo, é um drama com lances de ironia, desenvolvido durante pouco mais de 90 minutos com a releitura da temática de crise e fim de um casamento. Embora o motivo ainda seja clássico, narrando o esgarçamento do relacionamento a partir de um caso extraconjugal, a novidade introduzida e explorada por Dobrygin é que a traição não se consuma de forma carnal, mas virtualmente, a partir de um site pornográfico, em que a performer de webcam Sheena 667 (Jordan Frye) seduz e conquista o coração de Vadim (Vladimir Svirskiy), marido da jovem Olya (Yuliya Peresild).

Tudo está calmo em Vyshny Volochyok. Moradores da pacata cidade, Vadim e Olya abrem o filme com uma cena de sexo ao som da música Le Vertigo, do compositor barroco Rondeau, com a sonoridade do Cravo combinando com as batidas da cama, como que anunciando a felicidade do casal. No entanto, a tranquilidade familiar parece ser boa demais para durar.


Vadim trabalha em sua oficina de automóveis vendendo peças automotivas que ele desmonta de carros acidentados em um trecho rodoviário conhecido na região como "estrada da morte". Olya trabalha em uma agência dos correios. E eles têm um sonho: melhorar o negócio da oficina comprando um guincho na Europa a fim de rebocar por conta própria os carros, sem depender de fornecedores locais.

Porém, como bons herdeiros da tradição literária russa, os roteiristas parecem seguir a famosa frase com a qual Tolstói abre seu famoso romance de Anna Karenina: “Todas as famílias felizes são iguais. As infelizes o são cada uma à sua maneira”. Pois bem, a maneira peculiar pela qual o filme introduz a infelicidade do casal é através da Internet, fazendo uma atualização do drama universal da crise conjugal para o século XXI.


De forma fortuita, Vadim toma contato com um site de performers eróticas pela webcam e é seduzido pela virtualidade, pelo prazer virtual, sem a rotina e energia que o amor convencional vem exigir do ser. As cenas intensificam o drama, aguçando o escapismo familiar.



A estética das cenas lembra o estilo do cinema sueco de Roy Andersson (Você, os Vivos, 2009), com sua câmera estática, bem localizada, com planos medianos que retratam o mundo de Vadim, contrastando com a câmera nervosa, trêmula e de baixa definição das cenas fragmentadas representando o mundo em que Sheena vive e se apresenta ao novo amante, seduzindo-o com a visão do estrangeiro e do diferente.


Ao final volta a música barroca Le Vertigo, mas, se antes anunciava a união carnal, agora embala a separação dos sentimentos do casal, o distanciamento das almas, mesmo porque Sheena 667 ainda está distante. Eles irão se encontrar?


Um bom filme para os amantes das releituras dos motivos e temas do romance clássico.




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Também escreve esquetes de humor para internet (algumas no programa que também produziu chamado Dedo Indicador) e contos ainda não publicados. Atualmente está filmando dois curtas de sua autoria.  

 

Formado pela FACHA/RJ em Jornalismo e Publicidade & Propaganda. Fez aulas particulares com Jorge Duran (roteirista de Pixote e Lucio Flávio - Passageiro da Agonia). Fez a Oficina de Roteiro da Rio Filme e inúmeros cursos de roteiro com profissionais da área.

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