
O IMPRESCINDÍVEL PAPEL DA MÚSICA EM NOSSAS VIDAS
por Ricardo Corsetti
Confesso não ser um grande fã de filmes musicais e até vê-los com certa desconfiança de início. Mas, volta e meia surge uma bela surpresa, como é o caso de No Ritmo do Coração, para me fazer rever conceitos em relação ao gênero.

Filme ultra-simpático e que emana alto astral, gira em torno da história da garota vivida (com muito talento, aliás) por Emilia Jones (A Casa do Medo, 2018), que sonha ser cantora e, paradoxalmente, é filha de pais surdos-mudos. Seu inegável talento para a música esbarra no receio de, mesmo sem querer, acabar se afastando de seus afetuosos e divertidos pais, e também de seu irmão mais velho (também surdo-mudo).
Típica trama que envolve superação, bastante característica do cinema norte-americano de viés mais comercial, mas que, graças à habilidade narrativa da experiente diretora/roteirista Sian Heder (Tallulah, 2020), jamais cai no lugar comum do sentimentalismo barato. Pelo contrário, sendo conduzida com muito senso de humor e doçura na medida certa.
Destaque para o divertido professor de música, vivido pelo ótimo ator mexicano Eugenio Derbez (Como se Tornar um Conquistador, 2017), com toda aquela afetação e falso senso de superioridade que normalmente caracterizam os típicos artistas frustrados.

No Ritmo do Coração investe no - hoje extremamente em voga - discurso de inclusão e aceitação das diferenças, mas, felizmente, o faz sem panfletarismo ou qualquer tipo de engajamento militante desnecessário. O filme é puro entretenimento informativo, realizado com muito charme, senso de humor e competência.
Destaque também a excelente trilha-sonora, recheada de clássicos da música pop, folk e também da maravilhosa soul music norte-americana.

FAZENDO A DIFERENÇA
por Claudia Anaf
Dentre os filmes do festival, Doutora Liza, da diretora e roteirista Oksana karas (High Above, 2019), aborda um dia na vida da médica Elizaveta Petrovka Glinka, filantropa, médica e ativista de direitos humanos. Em 2007 criou a Fundação Ajuda Justa, que fornecia cuidados paliativos gratuitos a pacientes com câncer, bem como roupas e abrigo aos menos favorecidos.

Ressalte-se que, embora não conste no filme, dado que a cineasta optou por um recorte num dia da médica, Dra. Liza (durante o conflito em Donbass, no leste da Ucrânia) organizou a evacuação de crianças doentes graves do hospital e as levou para tratamento na Rússia. Em 2006 a ativista foi encarregada de levar medicamentos para a Síria, mas o avião em que estava caiu no Mar Negro, o que causou sua morte prematura aos 54 anos.
O filme conta com atores de peso da Rússia. Chulpan Khamatova (Adeus Lenin, 2003), uma das atrizes de teatro e cinema mais celebradas do país, é Dra. Liza. Konstantin khabensky (O Procurado, 2008) - que recebeu o prêmio de ator honorário em 2006 - é Gleb, o marido da médica.

Doutora Liza nos possibilita conhecer alguém cuja vida fez a diferença no mundo. Alguém que viveu fazendo o bem aos outros, o que é cada vez mais raro numa sociedade onde impera o individualismo.

MUITO BARULHO, PRA POUCO RESULTADO
por Ricardo Corsetti
Típico filme que tenta se amparar apenas em qualidade de realização técnica (leia-se efeitos especiais e muita pirotecnia), Mate Ou Morra revela-se incapaz de disfarçar sua pobreza em termos de roteiro e clareza narrativa, apesar de todo espetáculo visual que, sem dúvida, oferece ao espectador.

A inexpressividade do ator escolhido como protagonista: Frank Grillo (Uma Noite de Crime, 2013), compromete ainda mais qualquer possibilidade de o filme ser algo além de mero entretenimento totalmente descartável. Nem mesmo a presença de um seleto grupo de coadjuvantes "estelares": Naomi Watts (21 Gramas, 2003), Mel Gibson (Mad Max, 1979) e Meadow Williams (American Traitor, 2020). No sentido de compensar o "lusco-fusco" apresentado pelo protagonista, consegue resolver o problema, graças a um roteiro confuso e mal desenvolvido.
É também perceptível que Mate ou Morra tenta emular muita coisa presente em dois filmes específicos (bem superiores, diga-se de passagem): Corra, Lola, Corra (Tom Tykwer, 1998) e Mandando Bala (Michael Davis, 2007). No entanto, o recurso às constantes idas e vindas no tempo, que por um lado tão bem funcionavam em Corre, Lola, Corra, aqui apenas tornam a trama de Mate ou Morra confusa e por vezes até enfadonha. E isso apesar de sua duração enxuta de apenas 1 hora e 40 minutos.
O humor que se tentou imprimir à trama, visando torná-la um misto de comédia/ação, assim como ocorre no citado Mandando Bala, também não funciona durante a maior parte do tempo. A personagem samurai Guan Yin (Selina Lo), por sua vez, é uma das poucas coisas que funcionam razoavelmente, conseguindo trazer humor a algumas cenas, mas, ainda assim, depois de certo tempo a repetição de seus bordões também perde a graça.

E além de todos os problemas citados, a direção empreendida por Joe Carnahan (A Perseguição, 2011), embora tecnicamente competente, carece de personalidade. Ou seja, não é possível identificar uma "assinatura de diretor", semelhante a que vemos na obra de autênticos mestres do cinema de ação, como: John Woo (A Outra Face, 1997) ou Tony Scott (Chamas da Vingança, 2003), por exemplo.
Em poucas palavras, Mate Ou Morra resume-se a muito barulho por quase nada a oferecer, além de algumas belas explosões e tiroteios. É realmente pouco, mesmo para atender aos padrões de um filme de ação verdadeiramente competente.






































