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Atualizado: 23 de jun. de 2023



HUMOR CONTUNDENTE


por Ricardo Corsetti


"Nós trabalhamos com algo que tem assegurado a democracia ao redor do mundo: granadas. Anteriormente, nosso principal produto, eram 'bombas anti-pessoais', também conhecidas como, minas terrestres". Eis apenas um pequeno exemplo da fina e deliciosa ironia que percorre toda a trama de Triângulo da Tristeza, filme vencedor da Palma de Ouro, na última edição do Festival de Cannes, escrito e dirigido pelo sueco Ruben Ostlund (The Square - A Arte da Discórdia, 2018).

Toda a hipocrisia que caracteriza o mundo contemporâneo, presente no discurso de "igualdade de gêneros, racial e social" - vendida pelo universo da publicidade e da moda, por exemplo - é aqui desmontada com muito senso de humor, visando revelar que na prática, o que nos cerca diariamente é um reino de preconceitos de toda a natureza, filtrado por muita hipocrisia e afetação.


Destaque para a cena em que uma rica senhora européia, dentro de uma jacuzzi e tomando champagne francês, diz à funcionária do navio que a serve: "No fundo, somos todos iguais". E claro, o desfecho em que temos uma espécie de vingança do proletariado contra seus "cordiais" opressores, também é digna de nota.


A presença da bela e charmosíssima atriz sul-africana Charlbi Dean (Don't Sleep, 2017) - recentemente falecida, aliás - vivendo a top model Yaya, também merece destaque.

Obs.: Ecos de As Invasões Bárbaras (2003) do franco-canadense Denys Arcand, são facilmente identificáveis no humor inteligente e relativamente intectualizado que caracteriza todo o filme.


Obs. 2: Salvo a duração um tanto desnecessariamente longa (2h37 min.), na maior parte do tempo é mesmo uma delícia acompanhar as situações vividas em Triângulo da Tristeza, tais como o hilário embate entre um oligarca do Leste Europeu e o divertidíssimo capitão de navio marxista, vivido pelo sempre ótimo Woody Harrelson (Assassinos por Natureza, 1994).


E você aí, meu caro, já comprou sua "bota de pedreiro customizada" da Balenciaga por módicos 10 mil reais e assim ajudou a tornar o mundo um lugar pior, quer dizer, melhor?



Atualizado: 23 de jun. de 2023




UM FILME SINCERO


por Antônio de Freitas


Morte a Pinochet começa com as imagens reais de um pronunciamento do Presidente Augusto Pinochet (1915 - 2006) onde culpa as pessoas que estimularam uma manifestação como as culpadas pelo fim trágico que esta teve. Logo após podemos ver, em vídeos da época, a agitação nas ruas das cidades do Chile com protestos de populares e a posterior reação violenta da polícia. Em poucos minutos, o diretor novato Juan Ignacio Sabatini consegue passar para o espectador a violência que dominava o Chile durante a ditadura que vigorou de 1973 a 1990.

Após a apresentação eficiente de todo um universo dramático, conhecemos os protagonistas dessa história, os integrantes do grupo chamado Frente Patriótica Manuel Rodríguez, que se ocupa em tomar de assalto estação de rádios para fazerem propaganda contra o governo Pinochet. Usando uma montagem não linear somos apresentados a um painel onde podemos entender as motivações e a insatisfação desse grupo de jovens que sonham com a derrubada do governo e decidem que a violência dos militares deve ser combatida com uma resposta tão violenta quanto.


O uso de uma fotografia típica dos anos 80 consegue criar um eficiente clima de época que ajuda o diretor a traçar um perfil dos integrantes mais importantes do grupo com seus dramas individuais e o dilema de ter que abdicar da vida pessoal para mergulhar na clandestinidade. Exagerando, às vezes, nas cenas com diálogos explicativos, o filme nos mostra os diversos tipos que formam o pequeno exército de militantes revoltados que são oriundos de diversas camadas da sociedade. Alguns são pessoas de classe baixa e precisam lidar com as dificuldades de criar filhos e pagar as contas, além daqueles que fazem parte da classe alta e devem enfrentar a reação da família conservadora que os hostiliza por causa de suas escolhas políticas.


A personalidade e motivações do grupo é muito bem ilustrada e nos vemos diante de um bando de jovens muito diferentes entre si que tentam se organizar para cumprir um plano desesperado. Eles resolvem matar Pinochet. A narrativa se concentra em nos mostrar os diversos detalhes do planejamento, seus atritos para escolher quem deve comandar e o resultado de tudo isso nas suas vidas privadas.

O diretor/autor é muito eficiente em traçar um perfil psicológico dos integrantes do grupo valendo-se de ótimos atores, direção de arte de alta qualidade, assim como as caracterizações. Mas quando chega nos momentos de cenas de ação vemos uma direção um tanto perdida no planejamento. As cenas são confusas, curtas, rápidas e não conseguimos entender o que e como aconteceu. Juan Ignacio demonstra ser um ótimo diretor de atores, mas ainda precisa aprender a lidar com cenas que envolvem um grande grupo de pessoas e cheias de movimentação.


O resultado é um filme que merecia mais cuidado no planejamento e mais tempo em tela do ponto alto do roteiro, o atentando a Pinochet. O mesmo podemos dizer nas sequências onde vemos as consequências dessa ação com a resposta dos militares. Se esforçam e dão muito tempo na apresentação dos personagens e não dão a devida atenção ao clímax da história. Mas nada disso destrói as boas intenções desse filme que são de nos fazer compreender as motivações que levaram esses jovens a decidir partir para a violência. Antes de qualquer coisa, essa obra é de pessoas que queriam fazer um filme sincero sobre um momento triste, mas muito importante na história da América Latina.


Atualizado: 23 de jun. de 2023



TERRORZINHO GENÉRICO


por Antônio de Freitas


Nix – A Entidade, dirigido por Anthony C. Ferrante, nos provoca medo logo nos créditos iniciais, quando aparece o nome do diretor dos três últimos filmes da interminável franquia Sharknado e do infame Tsunami de Zumbis (2019).

A sensação é de que boa coisa não vai vir. Após o susto inicial somos apresentados a uma família que, nos anos 90, vai passear perto de um lago de aspecto tétrico. Os pais e os dois filhos não percebem que a filha caçula se afastou de todos para pegar uma bola extraviada e vai até a margem do lago onde é atacada por uma criatura que parece uma mistura de homem com uma ameixa seca em cena muito mal dirigida. Em plena luz do dia que denuncia as dobras da maquiagem de corpo inteiro e o material de borracha.

Há salto de 25 anos e a família vive em perpétuo trauma com a perda da filhinha. A mãe é interpretada pela adorada Dee Wallace, a inesquecível mãe do protagonista do icônico E.T. O Extraterrestre (Steven Spielberg, 1982), que está muito bem como uma mãe perturbada que espera a volta da filha. Os filhos estão adultos, um deles acabou de se divorciar e tem uma filha que é deixada com eles pela mãe relapsa. Quando a menina chega, coisas estranhas começam a acontecer e a família descobre que algo maléfico está rondando e talvez esteja conectado com o desaparecimento de 25 anos atrás.


O que vem depois é uma enxurrada de cenas batidas de filmes de terror com muitos jump scares, quando o cara de ameixa seca aparece abruptamente em delírios ou naqueles sonhos que fingem fazer parte da realidade para que, depois de um susto, mostrem que a pessoa estava sonhando.



O diretor tenta fazer um filme com muito clima e mostrando evolução do estado psicológico dos personagens, mas só consegue fazer cenas apenas morosas com enquadramentos sem inspiração. E comete um erro terrível ao mostrar toda a criatura e sua conexão com determinado personagem logo nos primeiros minutos, não deixando nada para o espectador imaginar. Esquece que grande parte do suspense reside na imersão do espectador quando capta apenas detalhes que atiçam sua curiosidade e servem como gatilho para que projete na história parte de seus medos. O resultado é um filme que não passa de um terror genérico e pretensioso.


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Também escreve esquetes de humor para internet (algumas no programa que também produziu chamado Dedo Indicador) e contos ainda não publicados. Atualmente está filmando dois curtas de sua autoria.  

 

Formado pela FACHA/RJ em Jornalismo e Publicidade & Propaganda. Fez aulas particulares com Jorge Duran (roteirista de Pixote e Lucio Flávio - Passageiro da Agonia). Fez a Oficina de Roteiro da Rio Filme e inúmeros cursos de roteiro com profissionais da área.

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