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Atualizado: 23 de jun. de 2023



MELHOR SERIA DESAPEGAR DO POLITICAMENTE CORRETO


por Beto Besant


O universo da compulsão pode ser tratado de diversas maneiras e gerar filmes de diversos gêneros como drama, suspense, terror e até mesmo a comédia, como foi escolhido aqui. Porém, há que se aprofundar nas questões para dar maior densidade à trama, o que não acontece aqui.

Desapega conta a história de Rita (Glória Pires), uma acumuladora compulsiva que trabalha como organizadora pessoal e controla sua compulsão liderando um grupo de pessoas problemáticas com a mesma patologia. O jovem senhor Otávio (Marcos Pasquim) acaba por ter um envolvimento com a protagonista. As coisas saem de controle quando Duda - a filha de Rita, interpretada por Maisa Silva - decide mudar-se para o exterior.


Dirigido pelo experiente cineasta Hsu Chien (Quem vai ficar com Mário?, 2021) - também autor do argumento do filme -, Desapega parte de uma premissa com diversas possibilidades, mas se perde por conta do politicamente correto. A nítida preocupação de não ofender a ninguém gerou um filme insosso, sem "tempero", como costuma acontecer com produções nessa linha. Dá até pra ouvir os produtores dizendo: cuidado para não ofender as gordas (duvido até que usem o termo), cuidado para não ofender as loiras, cuidado para não ofender as mulheres com mais de 40 (sendo bem gentil).

Glória Pires está muito bem como a protagonista, mas a diferença de idade para Maisa fica evidente. A jovem atriz segura bem o papel, emulando até um leve sotaque carioca, para não ficar muito distante do personagem de sua mãe. Marcos Pasquim será sempre uma reprodução de seu primeiro personagem, porém, com camisa.


O roteiro, escrito por Leandro Matos (Amor.com, 2017), o filme deixa de se aprofundar nas questões cotidianas dos personagens, como, por exemplo, mostrar os transtornos que elas causam em suas vidas. Limita-se a "situações engraçadinhas" que acontecem com os personagens de acordo com o tipo de compulsão de cada um, como a jovem blogueirinha que não faz nada sem registrar com seu telefone, o homem que todos adulam porque tem o costume de dar presentes, etc. O tipo de filme que nos primeiros minutos, seu desfecho já é previsível.


Desapega é um filme leve, típico "Sessão da Tarde", para toda a família, a ser esquecido após a sessão.




SUSPENSE AGUADO


por Antônio de Freitas


Alerta! Temporada de Tubarões, dirigido por Ludovic e Zoran Boukherma é uma tentativa dos franceses de entrar em um campo que sempre foi dos americanos: o velho subgênero dos filmes de tubarão.

Desde o gigantesco sucesso do filme Tubarão (Steven Spielberg,1975), o peixão tornou-se figurinha carimbada em outros filmes que, além das continuações diretas, resolveram surfar no “hype” do bicho.

Apareciam esporadicamente até o momento em que, mais de uma década atrás, a produtora Asylium começou a lançar montes de filmes com tubarões que inauguraram um novo filão, o de filmes ridículos e malfeitos que fazem sucesso por serem ruins. Seguindo em paralelo com essa vaga tivemos uma explosão de filmes europeus e asiáticos que se atreviam a entrar nos gêneros tipicamente americanos. Entre erros e acertos conseguiram produzir obras que chegaram ao mesmo patamar ou até conseguir fazer melhor.


E seguindo esse movimento, os irmãos Ludovic e Zoran Boukherma apostam na união de Terror com Comédia, uma mistura que produziu filmes icônicos na década de 80. Tudo se passa em uma pequena cidade balneário no litoral francês onde as pessoas sofrem com a vigilância ferrenha da policial durona em vias de se aposentar, Maja Bodernave. O verão chegou e a cidade está lotada de turistas, mas Maja avista um tubarão, avisa as autoridades e fecha as praias. O que vem depois é uma repetição do clássico de 1975 com os empresários da cidade hostilizando a policial que veste a casaca de heroína e se lança na aventura de caçar o peixão. Aí temos cenas que nos deixam com a sensação de já ter visto igual antes e uns momentos de comédia que não tem a mínima graça.

A produção é até bem feita, com belas locações, fotografia competente, trilha sonora adequada e bons atores nos papéis principais. Mas esses dois irmãos diretores não conseguem mesmo fazer um filme de suspense e nem assustar com cenas de ataques mixurucas e uma falta de personalidade geral dos coadjuvantes que, além de serem muito mal apresentados, se comportam como perfeitos idiotas nas cenas de perigo. Toda a atenção é dada para a policial com seu drama de ter que resolver a situação, dar atenção ao marido e ainda lidar com a hostilidade das pessoas da cidade que não é mostrada o suficiente para ser uma entidade presente. O mesmo acontece com a atmosfera de tensão que deveria estar presente no filme todo.


É uma tentativa fracassada de fazer um “shark movie” onde o tubarão mal aparece e não dá o mínimo medo. A história é rala, os personagens são fracos, as cenas de ação são preguiçosas e tudo leva a um dos piores embates finais da história do cinema de ação. Um verdadeiro naufrágio.




Atualizado: 24 de jun. de 2023




JORNADA PESADA NOS ABISMOS A VINGANÇA


por Antônio de Freitas


Plano A é dirigido pela dupla de irmãos israelenses Doron e Yoav Paz, e parece que isso é uma moda que começou com os irmãos (agora irmãs) Wachowski (Matrix, 1999). No currículo deles tem dois filmes de terror e um drama psicológico bem pesado. E eles entregam aqui uma história onde não existe a vergonha de carregar nas tintas. É também algo que não vai agradar a todos. Uma típica, mas não repetitiva, história de vingança baseada em terríveis fatos reais descritos pela pesquisadora israelense Dina Porat em seu livro “Nakam”.

A ação se passa na Alemanha de 1945, logo depois de sua rendição e ocupação pelas tropas dos aliados. A situação é de caos total com as cidades destruídas e as pessoas andando desorientadas por todo lado procurando por familiares, amigos ou simplesmente tentando sobreviver. Entre eles está Max, sobrevivente de um campo de concentração que procura por sua família, na sua jornada se depara com a destruição do país onde nasceu e as consequências psicológicas na população com as pessoas deixando de lado qualquer ética para tentar sobreviver, mesmo prejudicando os outros.


Recusando a ser maculado pela selvageria que tomou conta de todos, Max se concentra em procurar sua família e, na sua agoniante busca, toma contato com os restos humanos da destruída Alemanha onde o nazismo ainda vigora nos bastidores da sociedade. No meio desse caos ele encontra uma tropa de soldados judeus enviados pela Inglaterra que caça colabores do nazismo, não hesita em julgá-los e executá-los no mesmo lugar em que foram achados. Max hesita, mas ao saber que sua família foi dizimada se deixa levar pelo sentimento de vingança e vai se encontrar com outro grupo de nome Nakam (a palavra bíblica que significa vingança) que planeja algo muito, mas muito maior, e é essa missão a história que o filme quer contar.


Sem vitimização e se colocando no ponto de vista de Max com suas dores e dilemas, o filme conta sua história sem muita criatividade além do assunto inédito em uma produção bem feita, mas sem pontos altos que a tornem uma grande obra do cinema. Pode ser chamada de uma produção feita com competência e vale muito a discussão sobre o sentimento de vingança onde se questiona se a vítima, ao se vingar, se transforma ou não em uma criatura tão má como seu algoz. Vale a experiência em assistir e tomar contato com mais um dos milhares de fatos que ainda devem estar ignorados desse evento terrível que foi a Segunda Guerra Mundial.


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Também escreve esquetes de humor para internet (algumas no programa que também produziu chamado Dedo Indicador) e contos ainda não publicados. Atualmente está filmando dois curtas de sua autoria.  

 

Formado pela FACHA/RJ em Jornalismo e Publicidade & Propaganda. Fez aulas particulares com Jorge Duran (roteirista de Pixote e Lucio Flávio - Passageiro da Agonia). Fez a Oficina de Roteiro da Rio Filme e inúmeros cursos de roteiro com profissionais da área.

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