Atualizado: 17 de out. de 2025

PADRÃO COREANO COM INSPIRAÇÃO VINDA DO JAPÃO
por Antônio de Freitas
Ruídos (Noijeu, 2024) é mais uma produção de terror de uma das indústrias cinematográficas que mais crescem no mundo, a da Coréia do Sul. Após um maciço investimento em tecnologia, estúdios, educação e preparação de profissionais de todos os setores do cinema, a Coréia do Sul é hoje um dos concorrentes mais fortes de Hollywood. E, assim, uma verdadeira grife que virou sinônimo de criatividade e qualidade das produções.

Nos últimos anos recebemos uma grande leva de filmes e séries com roteiros surpreendentes e com altíssima qualidade na produção que ganhou mais notoriedade com o espetacular desempenho do premiadíssimo Parasita (Gisaengchung, 2019). O fato é que existe o modelo Coreano de filmes e séries e isto acaba gerando uma norma para a produção de mais e mais produtos que acabam repetindo as mesmas ideias e maneirismos.
Mas o diretor e o roteirista deste filme, ambos estreantes, resolveram olhar para além do mar e se inspirar em outra indústria de cinema que ganhou uma notoriedade no campo dos filmes de terror na virada do Século XXI. O cinema japonês tomou o mundo de assalto com uma leva de filmes com uma proposta de histórias cheias de atmosfera, desenvolvimento lento, personagens com profundidade e exploração de temas variados que acabam levando à uma impactante sequência ou cena final.
No filme em questão temos a exploração do problema do crescimento da densidade populacional da Coréia do Sul que acabou levando à problemas sérios de habitação quando as pessoas de classe média e baixa passam a viver praticamente amontoadas. E, no caso, é com a sensibilidade da cultura em relação ao barulho temos uma situação de choque quando as pessoas passam a hostilizar umas as outras.

Joo-young, uma moça que com deficiência auditiva descobre que sua irmã Joo-hee com a qual está brigada há anos está desaparecida. Procurando por pistas, ela vai ao apartamento da irmã onde também morava antes de cortarem as relações. O edifício onde se situa o apartamento é um espetáculo à parte com uma atmosfera pesadíssima de energia ruim e solidão, um monstro de concreto com dezenas de apartamentos por andar que forma uma imagem que nem precisa de explicações, sendo a materialização da proposta do filme de explorar a situação neurótica dos habitantes desse tipo de bairro.

Ali, em sua luta para encontrar a irmã, Joo-young vai topar com vizinhos sinistros e barulhos esquisitos que acontecem durante a noite que a levam a questionar se está perdendo a razão. O diretor conduz com maestria essa jornada sensorial onde cada estalar, ou ranger fora do lugar parece conter uma ameaça em um desenrolar de cenas que começam como parte de um filme de investigação e vai pouco a pouco se transformando em terror sobrenatural. Há poucos diálogos e muitas cenas com ação lenta em um ritmo enervante até um desfecho que surpreende e, apesar de pontas soltas e algumas incongruências, deixa várias perguntas que podem levar a várias interpretações sobre o que realmente acontece naquela verdadeira aberração da arquitetura que é o conjunto de apartamentos que se transforma em um verdadeiro personagem.
Ruídos não chega a ser um grande filme, mas souberam aqui juntar elementos das duas culturas já citadas e, apesar de vários tropeços, tem uma produção muito bem realizada e elementos suficientes para agradar aos fãs de filmes de terror. Principalmente a aqueles que admiram essa onda de filmes asiáticos que já influenciaram o ocidente contribuindo para o que chamam agora de “pós-terror”.
Atualizado: 17 de out. de 2025

UMA BELA SURPRESA COM APENAS UM “PORÉM”
por Antonio de Freitas
Missão Pet (Falcon Express, 2025) é uma produção francesa que se aventura em um território onde, raramente, as grandes produções americanas encontram adversários capazes de serem competidores à altura de suas obras. É o no campo dos longas metragens de animação computadorizada - dominado por superproduções - que, na maior parte, são continuações ou “spinoffs” que repetem as mesmas fórmulas de roteiro, mas conseguem ganhar o público no quesito de espetáculo visual.

Na falta de milhões de dólares para encher a tela, resta aos concorrentes apostar nas histórias mais criativas e fugir dos clichês de gênero para ter armas nessa guerra pelo público. E esta produção em questão oferece um visual lindamente produzido e ousa mergulhar em um famoso clichê dos filmes de ação de Hollywood: a aventura mirabolante em um espaço fechado ou meio de transporte com a possibilidade de um desastre como um avião, navio ou um trem, que é o caso do nosso filme.
Falcon é um Guaxinim que é uma espécie de “Robin Wood” de uma grande cidade e passa o dia dando pequenos golpes e surrupiando comida para dar para os seus amigos necessitados, os animais de rua. O natal está chegando e Falcon tem um plano de assaltar a cozinha de um Trem de passageiros que vai partir da estação ao lado de onde a comunidade de bichos mora. Tudo corre como planejado, ele consegue entrar no trem e, quando está se dirigindo para a cozinha, descobre que o trem partiu em alta velocidade sem ninguém no comando.

A partir desse momento começa uma aventura que não deve nada aos blockbusters do gênero. Ação desenfreada, suspense, surpresas e reviravoltas na história. Entram em cenas os animais que estão encerrados em gaiolas colocadas em um vagão especial e a variedade de personalidades conduz a brigas e competições que só enriquecem a história que está repleta de referências de filmes de ação famosos. Falcon tem que lutar para parar o trem e lidar com os preconceitos dos PETS que o consideram um reles bandido.
É uma animação bonita visualmente com texturas e iluminação de primeira qualidade. Os personagens são bem desenhados nos dois sentidos: no campo do design com traços de humanos na medida e no campo do psicológico onde cada um tem sua peculiaridade. Formam uma horda divertida que se transforma em um espetáculo à parte. E há piadas e situações que podem agradar à adultos e crianças também. Uma obra surpreendente que, com certeza, tem todas as qualidades para se transformar em um grande sucesso.
Existe apenas um “porém” nesse filme. É uma produção francesa com artistas e técnicos franceses e apostaram em fazer a história se passando em uma espécie de universo genérico com fortes caraterísticas de Estados Unidos. Acho que a França teria uma quantidade imensa de imagens e detalhes de cultura que poderiam ser representadas nesse filme.

TRAJETÓRIA DE UM PEQUENO GIGANTE
por Ricardo Corsetti
Excelente cinebiografia de um pequeno gigante Charles Aznavour (1924-2018), ótimo cantor e excelente compositor, além de um autêntico ícone da música/cultura francesa.
Aznavour é - aqui - brilhantemente interpretado pelo sempre ótimo Tahar Rahim (O Profeta, 2009). Sendo que o único senão do filme é mesmo a pesada maquiagem utilizada para "transformá-lo" em Aznavour, visto que, embora ótimo ator, Rahim, na verdade, não possui nenhuma semelhança física real com o cinebiografado.

No mais, porém, o filme é muito bem dirigido, tem ótima fluência e desenvolvimento narrativo, além de apresentar um primoroso trabalho de direção de arte (cenografia e figurinos) em termos de reconstituição de época.
Merece também destaque, a forma bastante direta e objetiva em que apresenta a relação profissional e de amizade entre Aznavour e outro ícone supremo da música popular francesa: Edith Piaf (1915-1963). Se por um lado Piaf foi, inegavelmente, muito importante na fase inicial da carreira de seu jovem pupilo, por outro lado, a verdade é que ela - seja por "ciúme" de seu inegável talento, ou até mesmo, medo de perder o amigo a longo prazo - também acaba, digamos assim, o podando bastante e, muitas vezes, tentou fazê-lo desacreditar de seu talento, dizendo-lhe, por exemplo, que "sua voz não era boa". Em resumo, outro grande mérito do filme, é nos mostrar que os deuses também são humanos em suas atitudes.

Outra passagem real, aliás, de "Monsieur Aznavour" que merece destaque é a impagável cena em que Aznavour e seu amigo simplesmente gastam todo o dinheiro que haviam ganho, até então, para comprar suas passagens aos EUA, indo atrás de Edith Piaf, crendo lá chegando, serem incluídos na turnê norte-americana da diva, em meados dos anos 50. Detalhe: eles simplesmente não faziam ideia de que era necessário o visto de autorização em seus passaportes para entrarem nos EUA. Resultado: são imediatamente presos e, durante uma espécie de entrevista com a agente de imigração, ao provarem serem cantores e conhecerem os principais standards do jazz norte-americano, conseguem assim, finalmente, o visto de autorização para lá permanecerem.
Pouco tempo depois Aznavour retorna à França. Após muita batalha, alcança a consagração como cantor e compositor popular. Mas, claro, não sem antes - na qualidade de filho de refugiados argelinos - descobrir na pele que a famigerada doce terra do "liberdade, igualdade e fraternidade", na prática, foi e sempre será, um autêntico poço de preconceito e intolerância.
Com distribuição da Imovision aqui no Brasil, Monsieur Aznavour, sem a menor dúvida, merece uma boa conferida.









































