Atualizado: 15 de ago. de 2021

NOVO FÔLEGO PARA UMA VELHA FÓRMULA
por Ricardo Corsetti
Que agradável surpresa foi assistir a nova versão de O Esquadrão Suicida, escrita e dirigida pelo talentosíssimo James Gunn (Guardiões da Galáxia, 2014). Filme que acerta em praticamente todas as escolhas que fez, seja em termos de estética, seja em termos de senso de humor inesperado.
Ao contrário do intragavelmente artificial clima pseudo-dark do primeiro filme realizado em 2016, aqui o diretor/roteirista flerta sem qualquer pudor, com a estética do trash/gore, de forma surpreendente para os padrões de uma mega-produção hollywoodiana, o que acaba conferindo ao novo filme um delicioso senso de humor muito peculiar.

Em boa parte do tempo o filme é tão divertidamente sanguinário que chega a lembrar o estilo de um Robert Rodriguez (Machete, 2010) por exemplo. Obs.: notem que eu disse "divertidamente" sanguinário, pois o senso de humor que permeia toda a trama evita, com extrema eficácia, que o desfile de tripas e cérebros voando por todos os lados se torne pesado ou de mau gosto, nem por um minuto.
Destaque para o personagem "Bolinha" (David Dastmalchian) que, em mãos erradas, poderia ser ridículo, mas dentro da proposta ultra bem-humorada da trama é simplesmente divertidíssimo ao projetar a figura de sua mãe, digamos assim, "superprotetora", em cada um dos inimigos que encontra pela frente ao longo da história. Obs: vejo ecos de Fome Animal (Peter Jackson, 1989) na construção deste personagem.

Quanto à estrela absoluta Margot Robbie, ela dispensa maiores comentários, pois sua presença cênica como a já lendária "Arlequina", é simplesmente hipnótica.
A presença da atriz brasileira Alice Braga (Cidade Baixa, 2003), embora relativamente pequena, como a filha do ex-presidente da fictícia ilha de Corto Maltês e atual guerrilheira, também é digna de nota.
Aliás, a forma como o filme desconstrói, sempre de forma bem-humorada, o suposto bom mocismo da eterna "polícia do mundo" (EUA) que visa ocultar seus reais objetivos bem menos nobres - ao invadirem republiquetas das bananas latino-americanas - é mesmo surpreendente.
Em resumo, fazia mesmo tempo que eu não via um típico blockbuster made in USA soar tão criativo e deliciosamente debochado, graças a um senso de humor tão certeiro. Longa vida a James Gunn, este garoto de 51 anos (rs) tem mesmo futuro.
Atualizado: 15 de ago. de 2021

SHYAMALAN EM MOMENTO CHRISTOPHER NOLAN
por Ricardo Corsetti
O mais recente trabalho do diretor M. Night Shyamalan (O Sexto Sentido, 1998) é claramente comprometido por uma execução equivocada. Ou, em outras palavras, Tempo é um típico exemplo de boa ideia básica desperdiçada por uma execução equivocada em termos de ritmo e fluência narrativa.

Longe do ritmo e cadência narrativa perfeita que caracteriza o já clássico O Sexto Sentido, por exemplo, embora Tempo possua apenas 1 hora e 48 minutos de duração, às vezes pesa como se tivesse 2 horas e meia, devido ao excesso de idas e vindas no tempo (flashbacks) e também a uma certa confusão no que diz respeito aos reais objetivos deste drama familiar que flerta claramente com elementos de ficção científica e horror.
O confuso tema central da trama lembra, inclusive, A Origem (2010) de Christopher Nolan, ao também tentar manipular a suspensão do conceito espaço/tempo, mas, justamente por isso, o filme de Shyamalan carrega os mesmos problemas tipicamente vistos em boa parte da obra do diretor britânico, marcada por uma pretensão pseudo-intelectual que quase sempre gera imensa confusão quanto ao que seria o objetivo primordial de um filme: contar uma história minimamente coerente ao espectador padrão de mega-produções hollywoodianas.

Tempo também peca ao recorrer a muitos estereótipos na construção de seus personagens centrais: o casal em crise conjugal, a mulher extremamente vaidosa, o cientista malvado, etc. Além disso, há também uma evidente preocupação em se adequar às normas do politicamente correto, contemplando praticamente todos os grupos étnicos: o latino (na figura de Gael Garcia Bernal), o oriental, a mulher afro-descendente, etc; na composição do elenco.

O desempenho do ex-galã mexicano Gael Garcia Bernal (Amores Brutos, 2000) como protagonista não vai além de apresentar uma atuação morna e genérica.
Por tudo isso, o que realmente se salva em Tempo é a qualidade técnica da produção, marcada por bons efeitos especiais e bela fotografia. No mais, infelizmente, fica claro que o retorno de Shyamalan à direção, após um considerável hiato, é, em termos gerais, decepcionante, apesar do evidente talento deste indiano que um dia conquistou a "Terra Prometida" chamada Hollywood.

O BRASIL PROFUNDO EM REGISTRO CINEMATOGRÁFICO
Ricardo Corsetti
A estreia como diretor ficcional do documentarista Leandro HBL (Favela On Blast, 2008) possui mais méritos do que erros. Mas ainda assim, trata-se evidentemente do trabalho de um jovem diretor ainda em busca de um estilo próprio.

A estrutura narrativa de Rodantes, composta por diversas tramas paralelas que em algum momento acabam por se cruzar, lembra bastante o estilo do consagrado diretor mexicano Alejandro Gonzales Inarritu em Babel (2006), por exemplo. E por isso mesmo, o filme do jovem diretor mineiro peca um pouco ao fazer uso de uma fórmula (a das pequenas tramas paralelas que se cruzam em algum momento) que foi bastante popular no início dos anos 2000, mas que hoje em dia já demonstra claros sinais de esgotamento. Por outro lado, há qualidades incontestáveis em Rodantes, como por exemplo o belo trabalho de fotografia. Embora a linguagem de câmera propriamente dita, às vezes tremida demais, talvez buscando uma certa urgência documental no registro das imagens, me parece um tanto equivocada, visto que prejudica a bela estética até então construída pelo lindo trabalho de iluminação das cenas.
Embora não seja possível eleger propriamente um protagonista dentro da história, a prostituta Tatiane, vivida pela sempre carismática e bela Caroline Abras (Gabriel e a Montanha, 2017), sem dúvida rouba a cena ao longo de praticamente todo o filme.

O jovem Jonathan Well (Divórcio, 2017) por sua vez, apresenta uma atuação apenas morna, prejudicando assim a construção do personagem Odair (jovem cozinheiro homossexual) que a princípio tinha tudo para o grande destaque da trama, mas graças a um desempenho apenas mediano acaba não empolgando ou mesmo comovendo o público, apesar do destino que o aguarda.
O experiente Murilo Grossi (Se Nada Mais Der Certo, 2008), por outro lado, dá um show na construção de seu personagem Aluízio, um asqueroso caminhoneiro psicopata que será, justamente, o responsável pelas agruras que o jovem Odair irá viver ao cruzar seu caminho.

Outro personagem interessante, mas mal aproveitado, é o imigrante haitiano Henry (vivido pelo estreante Félix Smith). Seu cotidiano de exploração em meio ao universo do garimpo poderia ser o grande destaque da trama, caso o desenvolvimento de seu personagem não acabasse tomando um rumo tão confuso no decorrer da história.
Aliás, o encadeamento entre os personagens, ou melhor, entre os diversos pequenos núcleos que compõem a trama de Rodantes ocorre de modo equivocado, confuso e por vezes até um tanto artificial, como por exemplo no desfecho relativamente inconclusivo, onde todos os pequenos núcleos acabam se cruzando, mas de uma forma bastante clichê e até decepcionante.
Entre erros e acertos, porém, Rodantes é extremamente bem vindo enquanto estreia na direção de longas ficcionais do jovem Leandro HBL. E, apesar de suas limitações (narrativas, sobretudo), nos apresenta um belo e ao mesmo tempo cruel registro acerca do "Brasil profundo": um país, em pleno século XXI, ainda permeado por uma brutal desigualdade social (e consequente cruel concentração de renda nas mãos dos velhos "coronéis"1) que, entre outras coisas, permite a insana exploração dos "anjos caídos" presentes nas figuras das muitas Tatianes e Odaires que encontramos por este Brasilzão afora.






































